quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sinjar libertada e concerto de Natal

Ontem fiz uma referência à notícia da reaproximação entre EUA e Cuba. Trata-se de um momento histórico, que poderá bem tornar-se a grande referência da presidência de Barack Obama. O Vaticano desempenhou um papel significativo, como referi de passagem ontem, mas que Aura Miguel explica melhor aqui.

Os islamitas voltaram a fazer o que fazem melhor: aterrorizar mulheres e crianças. Desta vez foi na Nigéria, onde mais de cem foram raptados depois de 30 homens terem sido assassinados. Depois, pelos vistos, os mauzões do Boko Haram foram até aos Camarões atacar soldados a sério e aí… a coisa não correu assim tão bem.

Do Iraque chega uma boa notícia. Os soldados curdos terão conseguido reconquistar centenas de quilómetros quadrados ao Estado Islâmico, quebrando também o cerco ao monte Sinjar, onde ainda se encontram centenas, se não milhares, de yazidis.

Este fim-de-semana há música em Lisboa! Os jovens dos movimentos católicos juntaram-se mais uma vez para organizar um concerto de Natal. Custa cerca de 4 euros a entrada e todo o dinheiro vai para caridade. Se puderem, não percam mesmo!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Parabéns Francisco e Paulo Bento clone de Santo António

O Papa Francisco festeja hoje 78 anos e foi brindado com danças na Praça de São Pedro. Não foi Tango, como alguns erradamente afirmaram, mas sim Milonga! (Digo eu, como se fizesse a menor ideia da diferença entre as duas).

Na audiência geral de quarta-feira de manhã Francisco não se referiu aos seus anos, preferindo concentrar-se nos anos de Jesus, que se aproximam, e lamentando a morte trágica de mais de 100 crianças, ontem, no Paquistão, bem como outras vítimas de terrorismo.

Também hoje Francisco nomeou novos membros para a Comissão de Protecção de Menores criado pelo Vaticano para combater os casos de abusos na Igreja. Um desses novos membros é um inglês que foi ele mesmo vítima de abusos, em criança.

A Igreja de Inglaterra nomeou a primeira mulher bispo. Era uma questão de tempo, mas não deixa de ser um obstáculo às relações ecuménicas com católicos e ortodoxos.

O Patriarca de Lisboa lamenta que as fugas de informação dificultem a justiça. Foi numa conferência conjunta com Fernando Santos, em que D. Manuel Clemente revelou que Santo António era cara chapada de… Paulo Bento!

Um grupo de católicos ligados a vários movimentos quer “Escutar a Cidade” para melhor cumprir os objectivos do Sínodo Diocesano. Saiba como.

Já é a notícia do dia, e embora não tenha nada a ver directamente com religião, parece que a troca de presos que poderá permitir uma reaproximação histórica entre Cuba e os EUA foi mediada em parte pelo Vaticano…

O Grande Ausente do Sínodo: A Contracepção

Vários casais foram convidados para participar no recente Sínodo Extraordinário que decorreu no Vaticano em Outubro, como auditores, sem direito a voto, para partilhar as suas experiências no terreno com os padres sinodais.

Um casal brasileiro, Arturo e Hermelinda Zamperlini, mostraram de forma impressionante como a contracepção é o contexto segundo o qual os muitos problemas que dizem respeito ao casamento devem ser compreendidos. A sua experiência coincide certamente com os factos das famílias católica noutras partes do mundo.

Pelas suas palavras: “Devemos admitir sem medo que muitos casais católicos, mesmo os que procuram viver o seu casamento de forma séria, não se sentem na obrigação de usar os métodos naturais [de planeamento familiar]… A isto acresce que normalmente não são questionados sobre o assunto pelos seus confessores… Em geral não consideram que seja um problema moral”.

Os Zamperlini pediram ao Papa e ao Sínodo que clarificassem e propagassem os ensinamentos da encíclica de Papa Paulo VI, Humanae Vitae. Um dos padres sinodais, o Cardeal Andre Vingt-Trois de Paris, apoiou-os, indicando que existe um novo “paradigma” (uma nova “norma”?) para os casais católicos: “Tudo isto tem consequências para a prática sacramental dos casais que frequentemente não encaram o uso de métodos contraceptivos como um pecado e, por isso, tendem a não confessar o facto e recebem comunhão sem problemas”.

O relatório final do sínodo menciona brevemente a contracepção no parágrafo 58, recomendando os “métodos naturais de regulamento da natalidade”. Mas a frase final, traduzida para inglês, levou a algumas interpretações ambíguas. No italiano lê-se: “Va riscoperto il messaggio dell’Enciclica Humanae Vitae di Paolo VI, che sottolinea il bisogno di rispettare la dignità della persona nella valutazione morale dei metodi di regolazione della natalità”, e o inglês diz: “we should return to the message of the Encyclical Humanae Vitae of Blessed Pope Paul VI, which highlights the need to respect the dignity of the person in morally assessing methods in regulating births.” [devemos regressar à mensagem da encíclica Humanae Vitae, do beato Paulo VI, que sublinhou a necessidade de respeitar a dignidade da pessoa na avaliação dos métodos naturais de regulação dos nascimentos.]

Os padres sinodais referem-se, como é evidente, à insistência de Paulo VI no Humanae Vitae de que os métodos de regulação dos nascimentos deviam respeitar a dignidade pessoal. Por exemplo, o parágrafo 17, que diz: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada.”

No final do Sínodo Extraordinário, Nicole Winfield, uma jornalista da Associated Press, propôs uma interpretação diferente: “No documento sinodal final os bispos reafirmaram a doutrina, mas disseram ainda que a Igreja devia respeitar os casais na sua avaliação moral dos métodos contraceptivos” [ênfase acrescentada]. Por outras palavras, ela interpreta os bispos como dizendo que precisamos de respeitar a dignidade da pessoa no acto de avaliar que métodos usar para regular os nascimentos, que é tudo uma questão de consciência individual. Se uma pessoa e o seu confessor acharem que a pílula não tem problema, tudo bem, respeitamos essa decisão.

Esta interpretação errada pode bem coincidir com a opinião geral dos casais católicos (e dos seus confessores) e ser a razão pela qual a vasta maioria dos católicos não se opõe à contracepção. Se for o caso, muitos dos assuntos familiares/maritais discutidos no sínodo têm como “denominador comum” as práticas contraceptivas generalizadas. Isto devia ter um efeito sobre as deliberações do sínodo.

Arturo e Hermelinda Zamperlini

Alguns exemplos:

·         Se um casal divorciado nunca pretendeu estar aberto à procriação, o casamento é inválido aos olhos do Direito Canónico, pelo que uma declaração de nulidade poderá mesmo parecer desnecessária.

·         Se um cônjuge num casamento válido decidir usar contraceptivos para evitar ter filhos, e o esposo não consentir, isto deve ser razão suficiente para declarar a nulidade do casamento?

·         Se os casais estiverem a praticar sexo antiprocreativo, como é que podem julgar consistentemente os homossexuais que também o fazem? Ou proibi-los de casar?

·         Se um casal que coabita estiver a usar contracepção, deve isto ser um impedimento ao casamento sacramental?

·         Quando se fala em admitir uma pessoa em união irregular à comunhão, o factor contraceptivo deve ser tido em conta? Ou já não é relevante?

Na conclusão do Sínodo Extraordinário de Outubro o meu pároco mostrou-se surpreendido, na sua homilia dominical, pelo facto de o tema do acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares ser sequer uma questão teológica, uma vez que ele e os seus colegas concedem frequentemente esse privilégio a muitos que o procuram, sem qualquer autorização superior.

Esta prática (chamada praxis in foro interno, i.e. que diz respeito ao “foro interno” da consciência) foi aprovada em 1973 pela Congregação para a Doutrina da Fé, mas restringido em 1981 pelo Papa João Paulo II na sua exortação apostólica Familiaris Consortio.

Numa exortação apostólica de 2007 o Papa Bento XVI (que em 1972, enquanto teólogo, tinha manifestado algum apoio à prática), afirmou que o Sínodo da Eucaristia de 2005 “confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados recasados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objectivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia”.

Mas pelos vistos o forum internum continua a ser utilizado frequentemente pelos confessores não só para permitir a comunhão a divorciados e recasados, mas também o uso de contraceptivos.

Vale a pena sublinhar que os padres sinodais que se mostraram favoráveis à admissão de católicos divorciados e recasados à comunhão não abordaram o tema da contracepção, que seria um impedimento adicional. Talvez estivessem a partir do princípio que a maioria dos divorciados e recasados, ao contrário de muitos dos outros católicos, evitariam a contracepção.

O Sínodo Ordinário da Família e Evangelização de 2015 terá uma nova oportunidade para abordar estas questões, que a Igreja, como os Zamperlinis disseram, e com razão, precisa de confrontar claramente e directamente.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 13 de Dezembro de 2014)

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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Islamitas a fazer o que fazem melhor...

Os islamitas voltaram a fazer hoje aquilo que sabem fazer melhor, matar inocentes indefesos. Foram mais de 100 crianças mortas a sangue frio num ataque a uma escola, no Paquistão. Quem foram os “bravos”? Os mesmos que tentaram matar Malala.

Em Espanha foram detidas sete pessoas acusadas de recrutar para o Estado Islâmico.

Os EUA continuam a tentar descalçar a bota de Guantanamo. Agora pediram ajuda à Santa Sé.

O Vaticano estendeu hoje um ramo de oliveira para as ordens religiosas femininas americanas. E assim chega ao fim um longo braço de ferro. Saiba tudo aqui.

E por fim, uma ideia engraçada. O Cardeal Saraiva Martins diz que se Roma ganhar a candidatura para acolher os jogos olímpicos de 2024, o Vaticano devia oferecer-se para acolher uma das modalidades.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sequestro em Sidnei e MDV premiado

O sequestrador Mon Haron Monis
Um homem fez pelo menos 30 reféns num café em Sidney, durante a madrugada de ontem. Trata-se de um autoproclamado sheikh muçulmano, nascido xiita, no Irão, mas convertido depois de ter sido recebido na Austrália como refugiado.

À medida que escrevo estas linhas o sequestro terminou, mas há notícia de mortos. Não é certo exactamente quem, mas mesmo que um seja o próprio sequestrador, haverá pelo menos uma vítima inocente a lamentar. A Renascença está a acompanhar de perto a situação.

Entretanto a Áustria mandou fechar uma escola saudita por suspeitas de radicalismo, mas há preocupação também com legislação proposta que limita a liberdade religiosa, impondo, por exemplo, uma versão alemã e estandardizada do Alcorão.

O Movimento de Defesa da Vida, que faz um trabalho notável com um orçamento muito limitado, recebeu um prémio com valor monetário de 50 mil euros pelo “Projecto Família”, que trabalha com famílias em situação precária. É uma ajuda preciosa.

O Cardeal Oscar Maradiaga, um dos principais conselheiros do Papa Francisco, esteve em Portugal e falou com Aura Miguel sobre as suas ideias da Igreja e das reformas que o Papa está a preparar.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A Santa Sé prepara-se para o Punk Rock

Patti Smith
Patti Smith vai cantar amanhã no concerto do Vaticano. Há quem ache surpreendente e escandaloso. Saiba aqui porque não devíamos sentir nem uma coisa nem outra.

Para melhor entender este caso recorremos ao nosso especialista de punk rock e Cristianismo, o cantor e pastor Tiago Cavaco. Ele tem muita coisa interessante a dizer sobre Patti Smith e revela que se fosse ele a ser convidado… porque não?

Noutras notícias, o bispo da Guarda espera que os casos de pessoas mediáticas a serem levadas à justiça sirvam para motivar a sociedade.



Termino com um aviso. A fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que merece todo o nosso apoio, organiza uma série de concertos de Natal. Não deixem de consultar aqui as datas e os locais, e apareçam. É uma forma de ajudar!

“Se o Papa me convidasse para tocar para ele, porque não?”

Transcrição integral da conversa com Tiago Cavaco sobre o facto de Patti Smith actuar no concerto do Vaticano, em Roma. A reportagem está aqui.


O facto de Patti Smith cantar no concerto do Vaticano está a ser apresentado quase como uma hipocrisia, por ela dizer numa das suas primeiras músicas: “Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não os meus”. Concorda?
Ela escreve sobre isso num livro editado em Portugal, chamado "Apenas miúdos", onde conta um bocado a sua história com o seu companheiro que foi o Robert Mapplethorpe, um fotógrafo, e o que ela diz sobre essa frase é que revoltar-se contra Jesus era revoltar-se contra a própria rebelião, porque Jesus era também um rebelde.

Uma das coisas interessantes é que provavelmente hoje, comparado com os anos 70, em que ela escreveu isso, Jesus é um símbolo de maior rebeldia do que era nessa altura. Portanto termos uma cantora como a Patti Smith a associar-se à figura de Jesus até acho que é uma justiça poética e ela é uma poetisa. Eu encontro lógica aqui, não vejo incoerência, vejo lógica.

Mas podemos então dizer que ela é religiosa?
É uma boa pergunta. Às vezes tenho dificuldade em classificar o que é uma pessoa religiosa por oposição a uma pessoa não-religiosa. Por um lado acho que ter uma má vontade, a toda a prova, contra a religião, por si pode ser uma religião também, porque é uma coisa muito exigente, uma pessoa que esteja sempre contra a Igreja tem de ser muito zelosa nisso, é preciso dar muito de si para ser muito coerente com isso.

Não deixa de ser contraditório, a Igreja – e eu não sou católico romano – passa a vida a ser criticada por não falar com o mundo e cada vez que o mundo vem falar com a Igreja as pessoas também criticam. O que parece é que a Patti Smith é uma pessoa que se apercebe que a religião é uma coisa demasiado importante para ser rejeitada e descartada de maneira fácil.

Há um aspecto que acho assinalável. A Patti começou a escrever antes de fazer música e o que diria é que o Cristianismo é por excelência uma fé da escrita, portanto alguém que escreva, mesmo que não creia, faz todo o sentido que tenha uma relação próxima com o Cristianismo, mesmo que não seja uma relação de crença. Portanto que uma cantora que é escritora, como a Patti Smith, se aproxime da Igreja, nem que seja em coisas destas, acho absolutamente normal e natural.

Num dos álbuns dela, "Easter", cita São Paulo "Combati o bom combate, completei a carreira..." A frase seguinte seria "Guardei a Fé", mas ela deixa de fora. Isso pode ter algum significado?
Lá está, acho que qualquer pessoa que goste de ler e que tenha passado por momentos da sua vida em que alguma coisa que leu a transformou, de um modo geral, se viver com acesso ao texto bíblico, vai ser uma pessoa com interesse por ler a Bíblia, e vai sentir-se desafiada pela Bíblia.

A Bíblia é o livro dos livros, quer as pessoas creiam nele enquanto revelação divina ou não. É o grande livro da nossa cultura, mesmo que não nos coloquemos perante ela sob uma perspectiva de fé. Portanto a capacidade que a Patti Smith tem de citar textos bíblicos, eventualmente trazendo questões às afirmações que lá estão, acho que é uma coisa absolutamente produtiva e sinal de que ler o nosso tempo é necessariamente ler o texto bíblico também. Eu acho que a Patti Smith está a caminho de fazer muito mais perguntas ao texto bíblico do que aquelas que já tem vindo a fazer. 

Essa é uma das grandes pobrezas da nossa cultura em Portugal, é que os nossos artistas não lêem a Bíblia. E portanto não têm sequer a capacidade de perceber o que lhes agrada ou não agrada, porque pura e simplesmente não a conhecem. Os Estados Unidos de facto são um país com uma cultura diferente e as pessoas estão habituadas a ir ao texto bíblico, nem que seja para se zangarem com ele, mas isso é saudável, irmos ao texto bíblico nem que seja para nos zangarmos com ele. Mais tarde traz encontros. Hoje a Patti Smith estar a tocar para o Papa acho que sem dúvida tem a ver com o facto de ela ter a Bíblia aberta, isso ajuda bastante. 

Independentemente de ser falsa a imagem dela ser um ícone anti-religioso, não deixa de ser surpreendente vê-la a cantar no Vaticano.
Depende da forma como o vemos. Se nós pensarmos em tocar para o Papa como um prémio carreira, vamos ter de pensar que a pessoa que vai tocar para o Papa tem de ter uma relação muito próxima com ele. Mas se tivermos a ideia de que tocar para o Papa é no fundo participar num momento em que os cristãos, neste caso os católicos, dialogam com o mundo, então é possível que o Papa naturalmente receba pessoas e que possam cantar para ele sem que isso represente um acto de profissão de fé. Acho que depende um bocado da maneira como se olha para isto.

Eu que não sou católico romano, mas que sou cristão, provavelmente não acontecerá, mas se o Papa me convidasse para cantar para ele, porque não? Da mesma maneira que se for convidado por um amigo para ir jantar lá a casa, apesar de não gostar de cantar nestes contextos, depende da amizade que temos pelas pessoas. Portanto eu acho que é preciso que a nossa visão do contacto que temos com a religião seja uma relação mais do campo da amizade, onde somos capazes de sermos amigos mesmo das pessoas com quem não concordamos. 

A esse nível, de modo nenhum me choca que a Patti Smith, ou qualquer outra pessoa que não seja conhecida pela sua fé, vá cantar e tenha alguma relação ou gesto de amizade, neste caso com a Igreja Católica e com o Papa em particular. 

O Papa também passa a vida a ter gestos de amizade com pessoas que não são católicas, portanto acho que faça sentido que as pessoas que não são católicas também tenham gestos de amizade com o Papa.

Da obra dela, em termos de referências religiosas, o que é que destacaria?
Na verdade não sou um conhecedor profundo da Patti Smith, é verdade que ela é de uma área que é a minha área de afectos, ali no início do punk, há quem lhe chame proto-punk, no sentido de ser aquilo que veio permitir que o punk aparecesse como uma reacção a uma música que era muito sofisticada, muito gorda, muito progressiva. 

A Patti Smith, é uma pessoa que escrevia e que começou basicamente por fazer discos muito mais falados do que propriamente cantados, isso é interessante, porque o punk, apesar de ter uma aura de simplicidade, não veio destituir o poder da palavra, nem que fosse pela palavra-choque, mas os discos da Patti Smith, que não conheço muito bem, tirando o "Horses" por exemplo, são discos que voltam a colocar naquilo que se está a dizer a importância daquilo que se está a tocar. 

Acho difícil que algum músico que faça música e que dê valor às palavras não torne a música com qualidade espiritual. Porque podemos ouvir músicas numa fase bastante simples, mas a partir do momento em que a palavra começa a ser uma coisa importante há um valor espiritual aí, pelo menos é isso que os cristãos acreditam. Deus é um Deus que se revela através da palavra, neste caso a Bíblia, mas que se revela através de Cristo enquanto Verbo, portanto a nossa cultura é uma cultura que valoriza a palavra e por isso acho que nos discos da Patti Smith, pelo valor dado à palavra, há uma espiritualidade. Essa é uma das coisas que podemos encontrar até na música popular e no rock, quando a palavra é importante.

Quando aquilo que se diz não é importante e é mais um pretexto para que os instrumentos toquem, então é provável que seja fácil distrairmo-nos com mensagens que não são assim tão vitais. Mas no caso da Patti Smith é um universo diferente, é um universo que valoriza aquilo que está a ser dito e isso, na minha perspectiva, leva sempre a uma relação pelo menos de indagar e questionar a fé.

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