quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Qual é o objectivo?

Anthony Esolen
Foi W. H. Auden quem disse que todos os críticos deviam mostrar as suas credenciais antes de escrever sobre literatura. Mas as credenciais a que se referia nada tinham a ver com a formação académica ou bibliografia. Auden dizia que eles deviam confessar aos seus leitores qual era a sua visão do paraíso.

Penso que este requisito devia aplicar-se também a todos os críticos sociais e a todos os que propõem alterações fundamentais às leis ou aos costumes. A todos os que se identificam como progressistas, a pergunta evidente é: “Para onde vamos? E porque é que queremos chegar aí?”

Deixemos de lado, por um momento, o facto de não ser possível um paraíso sobre a terra, pois isso implicaria a perfeição das virtudes entre homens decaídos. Nas palavras de Solzhenitsyn, no coração de cada homem trava-se uma batalha entre o bem e o mal.

Deixemos de lado aquela confiança vã de que podemos chegar à terra prometida se seguirmos a estrada mágica da “ciência” ou da “democracia”, ou da “igualdade” ou da “liberdade sexual”, e que tudo estará bem.

Deixemos de lado os meios para chegar a essa terra prometida. A questão que se coloca aos progressistas é: “Que terra é esta que nos prometem? Porque é que é esse o vosso destino? Como é que é? Como é que imaginam o paraíso?”

Para o verdadeiro conservador a questão é menos agressiva e urgente, uma vez que o verdadeiro conservador não acredita no paraíso sobre a terra. “Como é que seria um paraíso? Dadas as fragilidades da natureza humana, que pálido reflexo desse paraíso é que os nossos antepassados, ou nós mesmos, já garantimos? Se já perdemos parte dessa boa realidade, como é que a podemos reaver?”

Esta questão tem implicações sobre o grande debate do nosso tempo, o da chamada “libertação sexual”. Por isso coloquemos aos progressistas esta questão: Qual é a vossa ideia de paraíso? Para onde nos estão a conduzir?

É uma terra em que a maioria das pessoas no auge das suas vidas são casadas? Pelo que os homens e as mulheres dedicam a maior parte do seu tempo a dedicar-se à disciplina edificante e unificadora da vida familiar?

É uma terra em que praticamente nenhum casamento termina em divórcio?

É uma terra em que praticamente não nascem crianças fora do porto seguro do casamento e de votos de estabilidade e perpetuidade?

É uma terra cuja cultura popular celebra aquilo que há de mais nobre na humanidade e não aquilo que é rude, ordinário e egoísta? Uma terra em que os rapazes e as raparigas aprendem que é errado levar uma vida de hedonismo?

É uma terra em que a pornografia é considerada lixo porque conspurca o corpo e a mente?

É uma terra em que os homens têm muita coisa boa para dizer sobre as mulheres e as mulheres muita coisa boa para dizer sobre os homens?

É uma terra em que os casamentos são tão fortes que aqueles que sucumbem às tentações do mau comportamento podem contar com assistência pronta dos seus vizinhos e familiares?


É uma terra cujas igrejas se enchem ao domingo?

É uma terra cujas famílias são tão estáveis e tão presentes na vida local que os políticos, os professores e os homens de negócios precisam de contar com elas? Uma terra em que as famílias supervisionam as escolas e onde os professores são vistos como representantes dos pais, nomeados à sua discrição?

É uma terra cuja vida familiar é dão produtiva e vibrante que em vez de vermos entretenimento massificado a ser bombeado para dentro das casas, existe uma verdadeira cultura popular a florescer dentro de casa?

É uma terra em que se honram as virtudes que fortalecem e protegem as famílias? Uma terra em que a castidade não é desprezada por ser uma forma de puritanismo mas louvada como forma de autodisciplina que respeita a beleza da sexualidade e a santidade do casamento?

É uma terra em que a primeira prioridade da economia é o bem do lar? Uma terra em que as leis e os costumes fortalecem a vida familiar, aumentando as probabilidades de as crianças passarem a maior parte do tempo em casa na companhia de pelo menos um dos seus pais? Uma terra de vizinhança e não de mera proximidade, onde as famílias que vivem nos mesmos bairros se conhecem ao ponto de formar uma espécie de família alargada em que as crianças podem brincar à vontade, sempre debaixo do olhar de alguém de confiança?

É uma terra em que os Governos podem dedicar-se aos seus afazeres, porque quase todos os assuntos verdadeiramente importantes já são tratados pelos lares, os bairros e as paróquias?

É uma terra em que as crianças não são precocemente sexualizadas, tendo assim tempo para aprender a ser rapazes e raparigas antes de entrar na fase da puberdade? Uma terra em que alguém que expressasse a vontade de se insinuar sexualmente nos desejos sexuais de uma criança seria visto como monstruoso? Uma terra em que um pervertido sexual e uma fraude como Alfred Kinsey não seria celebrado?

Nesta terra poderíamos ter uma parada anual para festejar aqueles que celebram os 40 anos de casados, na companhia dos seus filhos e netos? Uma terra em que a palavra “puro” não é usada como gozo e “decadente” não é considerado um elogio?

A todos os que defendem o absurdo biológico de um homem se poder casar com outro homem, perguntamos: “Essa terra que nos propõem é uma onde seriam felizes? Vocês querem que acreditemos que vos podemos conceder esta coisa que desejam sem termos de abdicar de todas as outras coisas que as pessoas comuns sempre quiseram e das quais tantas vezes puderam gozar. Mas essa não é uma mentira? Não é antes verdade que não querem nenhuma dessas outras coisas?

Para onde nos querem levar? Porque é que havíamos de querer ir convosco?


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

A “História da Igreja Católica” de Hitchcock

Acabei de ler a “História da Igreja Católica” de James Hitchcock, o que me levou a reflectir sobre alguns desenvolvimentos históricos que nos podem dar que pensar hoje em dia, sobretudo em três áreas específicas:

1. Desenvolvimentos Litúrgicos

No que diz respeito à Missa, o latim tornou-se a língua litúrgica em vez do grego no terceiro século, por ser o vernáculo. O “beijo da paz” era um costume pagão que foi gradualmente incorporado na liturgia. A comunhão na mão prevaleceu até ao século nono, altura em que se formulou a doutrina da presença real e a comunhão na boca tornou-se a respectiva afirmação doutrinal, (hereges como Ratramnus atacaram a ideia). Durante a Idade Média, sob influência do clero franco, as genuflexões, o sinal da cruz e outros gestos tornaram-se lugares-comuns litúrgicos. A comunhão era pouco frequente. O Concílio de Trento viria a encorajar a comunhão frequente, mas aquilo em que os padres conciliares estavam a pensar era comunhão semanal para seminaristas e comunhão mensal para freiras. Foi Pio X, no século XX, quem abriu a porta para aquilo que hoje compreendemos como “comunhão frequente”.

Enquanto académico de línguas clássicas, tendo estudado grego e latim no liceu e na universidade, tendo ensinado latim em África e na Califórnia e memorizado grande parte da missa em latim, fiquei de rastos quando se começou a celebrar o Novus Ordo em inglês. Graças às maravilhas da tecnologia Android, agora consigo ler partes do ofício divino em latim no meu Smartphone. Mas ainda não sei de cor o Glória nem o Credo em inglês. Seja como for, a missa não é sobre mim! Não se pode voltar atrás: a nossa é uma Igreja de muitos ritos – romano, bizantino, alexandrino, siríaco, arménio, maronita, caldeu… - com uma variedade de línguas – grego, sírio, árabe, russo, eslovaco, etc. A missa nos países de língua inglesa continuará a ser em inglês, com pequenos bolsos aqui e ali para quem ama a forma “extraordinária”. Ainda há padres fluentes em latim? Se não, será que têm tempo para aprender?

Mas a prática de celebrar a missa “versus populum”, de frente para a congregação, em vez de “ad orientem”, de frente para o altar, é um problema. Se há esperança para o diálogo ecuménico com os ortodoxos, esta prática, bem como a primazia do Papa, é um obstáculo gritante. A arquitectura das igrejas católicas de rito latino mudou significativamente desde o Vaticano II, com uma mesa próxima da congregação, ao estilo protestante, em vez de enfatizar o altar em frente, onde o padre continua a renovar o mistério do sacrifício de Cristo na Cruz.

Temos de perguntar: quais são as nossas prioridades ecuménicas? Queremos investir na união com os protestantes, que se sentem confortáveis numa igreja com uma mesa para a “Ceia do Senhor”? O senso comum deve levar-nos a dar prioridade aos ortodoxos, que são “igrejas irmãs” com sucessão apostólica válida e perpetuam de forma reverente o sacrifício da missa.

Entretanto, continuando a assistir a missas “Novus Ordo”, ficaria razoavelmente satisfeito se os padres apresentassem claramente a missa como um sacrifício em vez de uma refeição comunitária, deixassem de usar termos neutros para substituir os masculinos no Evangelho e no missal e deixassem de atravessar toda a Igreja para socializar na altura da comunhão.

2. Escândalos na Igreja
Jesus avisou os seus discípulos de antemão: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mt. 18,7). Os séculos IX e X foram o auge dos escândalos, tanto na Igreja como na política. Carlos Magno casou-se cinco vezes, teve seis concubinas e forçou as filhas a ter filhos fora do casamento, para evitar problemas com genros sedentes de poder. O Papa Estêvão VI exumou o cadáver do seu antecessor, o Papa Formoso, para o profanar publicamente por causa de desentendimentos sobre direito canónico, mas ele também acabou preso e estrangulado até à morte.

No século XI Bento IX tornou-se Papa através de subornos, mas acabou por resignar, na condição de ser reembolsado. No século XV o Papa Sexto mandou dois padres assassinar alguns Medicis que representavam obstáculos a alianças estratégicas que tinha em mente; e o Papa Alexandre VI, depois de uma feroz campanha para se tornar Papa, viria a ser um dos pontífices mais infames. Pio II, o único Papa a escrever uma autobiografia, também era conhecido por escrever obras pornográficas antes de ter conseguido alcançar o pontificado através de esquemas ambiciosos.

Contudo, as reformas proliferaram juntamente com os escândalos. No século XII, Pedro Abelardo, famoso pelos encontros com Heloísa, acabou por se tornar um director espiritual e um abade reformador, a tal ponto que os seus monges o tentaram envenenar, enquanto Heloísa se tornou abadessa de uma comunidade de freiras. No século XIV, Santa Catarina de Sena, que não deixava de melgar os papas desnorteados, dedicou o capítulo 124 dos seus famosos diálogos à necessidade de obliterar o escândalo dos padres sodomitas para se poder reformar a igreja. No século XVI o Papa Paulo III, cuja carreira foi auxiliada pelo facto de a sua irmã ter sido amante de Alexandre VI, deixou para trás uma vida de escândalos para se tornar um Papa reformista. E no século XVII a grande reforma trapista da ordem cisterciense foi conseguida por Armand-Jean de Rancé, depois da morte da sua amante.

No século XX, para além do escândalo de padres e freiras a abandonar os seus ministérios, o maior escândalo tem sido o dos abusos sexuais, incluindo pedofilia, por padres em boa conta, bem como o encobrimento e as “transferências”. Mas enquanto recuperávamos deste pesadelo tivemos dois grandes e santos papas, bem como uma reforma gradual e bem-sucedida numa área de disciplina interna da Igreja que costumava passar-se só atrás de portas fechadas, mas agora se tornou mais transparente.

E agora, perante desafios abertos à liberdade religiosa por parte dos governos, é possível que vejamos os bispos e outros líderes religiosos a chegarem-se à frente e a fechar serviços, como agências de adopção, em vez de ceder à pressão de servir “casais” homossexuais ou fechar hospitais em vez de sucumbir às exigências de financiar contraceptivos nos seguros. A “reforma”, nestes casos, poderá exigir atitudes verdadeiramente heroicas.

3. Concílios

Temos assistido a críticas incessantes ao Concílio Vaticano II por não ter clarificado nem fortalecido a posição da Igreja no mundo e de, pelo contrário, ter levado a uma fuga de fiéis. Mas como Hitchcock faz questão de sublinhar, historicamente os concílios nunca resolveram os problemas da época em que foram convocados. Pelo contrário, em muitos casos ajudaram a intensificá-los. O Concílio de Nicéia (325), que tinha como objectivo clarificar questões sobre a divindade de Cristo, acabou por gerar ambiguidades sobre a sua “consubstancialidade” com o Pai. O Concílio de Calcedónia (451) não resolveu o problema da relação de estatuto entre as sés de Roma e de Constantinopla. 

O Concílio de Trento (1545-63) foi recheado de divisões políticas. Boicotado pelos bispos franceses, teve a oposição de Paulo IV mas foi retomado por Pio IV, embora sujeito a relações tempestuosas entre facções nacionais e doutrinais. Os objectivos contra-reformistas de resolver as questões da justificação e da relação entre a graça e o livre arbítrio foram em larga medida falhados e a missa no vernáculo foi proibida, apesar de o latim ter alcançado a primazia precisamente por ser o vernáculo.

Igualmente, o Vaticano I (1869-70) enfrentou oposição episcopal considerável à declaração de infalibilidade papal. Um dos problemas era que, historicamente, dois papas tinham estado perto de heresias. Honório, no século VII aceitou o monoteletismo e o Papa João XXII, no século XIV defendeu, por um período, a doutrina de “alma adormecida” após a morte, antes do juízo final. Foi por isso que se incorporou a condição de se falar “ex cathedra” na declaração, para diminuir a probabilidade de pronunciamentos heterodoxos.

Por isso o Vaticano II, por mais falhas que tenha tido, não foi caso único. As divisões políticas eram imensas. Os principais agentes no Concílio foram principalmente teólogos, muitos dos quais do género “progressista”, e os bispos e os cardeais tendiam a dar lugar a esses “peritos”, como explica Hitchcock:

Juntamente com Schillebeeckx, Haering e, em menor escala, Rahner, o padre e teólogo germano-suíço Hans Küng tornou-se o mais apaixonado e audaz porta-voz do aggiornamento, exigindo que a Igreja se acomodasse a uma cultura em mudança, enquanto Lubac, Danielou, Maritain, Balthasar, Bouyer, Ratzinger e outros protestavam o que consideravam ser distorções do concílio.

Um dos principais pontos de viragem do Vaticano II teve lugar quando a Comissão Teológica, presidida pelo Cardeal Ottaviani, foi ultrapassada pela berma pelo recém-criado Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos, presidido pelo Cardeal Bea. Este secretariado era idealista em relação à possibilidade de se restaurar a unidade e pragmática quanto aos métodos, que incluíam gestos diplomáticos para com os soviéticos e os representantes ortodoxos que simpatizavam com os soviéticos.

Vários dos “schemata” foram submetidos a critérios ecuménicos. Assim, os progressistas conseguiram descarrilar os esforços para enfatizar a Virgem Maria como Mediadora de todas as Graças e co-redentora, uma vez que isso era visto como um obstáculo à unidade co os protestantes. Os braços do secretariado chegavam mesmo bem mais longe que o Cristianismo, em direcção ao Islão, visto como uma religião “abraâmica” que adorava “o Deus único e misericordioso”. (Tanto quanto sei nem um dos peritos que escreveu a Constituição Dogmática Lumen Gentium era um estudante sério da doutrina, prática e história do Islão.)

Apesar destes exageros e talvez algumas ambiguidades noutros documentos, (o concílio não emitiu leis ou declarações definitivas sobre questões de fé e de moral), o Vaticano II não produziu nada de claramente herético. Os progressistas avançaram com propostas que tresandavam a heresia, como o conciliarismo, modernismo, a primazia da colegialidade episcopal, compromissos com a liberdade religiosa, etc. Mas a organização tardia de “conservadores” como como os cardeais Ottaviani, Siri, Ruffini e o arcebispo Lefebvre, entre outros, bem como as suas intervenções nas conferências, ajudaram a modificar estas iniciativas e a colocar os debates novamente em linha com a tradição e os anteriores concílios.

Aqueles que apontam para o Vaticano II como o princípio de uma espiral de declínio para o Catolicismo não têm em conta que o Concílio teve lugar mesmo durante a revolução sexual dos anos 60. Enquanto o Concílio começava, em 1962, a pílula contraceptiva estava no mercado há dois anos e esperava-se que um dos resultados deste concílio “pastoral” fosse a aprovação de pelo menos esta forma de contracepção. Quando isto não aconteceu e quando a encíclica Humanae Vitae (1968), de Paulo VI, enfrentou a rejeição ou a indiferença esmagadora de muitos bispos e teólogos, isso conduziu a uma crise de autoridade, que se mantém. O feminismo militante e o ataque a todas as formas de “patriarquia” também foram um factor muito importante.

Será que o Vaticano II conseguiu “abrir as janelas para deixar entrar ar fresco”, como o Papa João XXIII esperava? De certa maneira, sim. No Vaticano I, por exemplo, não havia cardeais da Ásia nem de África. No Vaticano II, contudo, os cardeais africanos, asiáticos e da América Latina estavam bem representados. Foi sem dúvida mais “ecuménico” no sentido de abrir a Igreja ao mundo. Aliás, Hitchcock apresenta uma estatística interessante, que em 2010 a Igreja duplicou de tamanho em relação ao fim do Concílio Vaticano II.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination(2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em TheCatholic Thing no sábado, 16 de Agosto de 2014)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Isso é tão Iluminismo

Um dos recursos de estilo mais irritantes no discurso público actual é quando se critica uma coisa como sendo “medieval”. O crítico não está a referir-se à janela de rosa da catedral de Chartres, nem os tratados místicos de Bernardo de Clairvaux sobre o amor divino, nem o código de conduta elaborado da tradição cavalheiresca. Essas tradições, por alguma razão, não contam como “medievais”. Só a brutalidade, que é comum a todas as eras, infelizmente, define o que é medieval, bem como um certo obscurantismo religioso, cujos registo históricos são difíceis de encontrar, mesmo quando comparado com a confusão dos nossos tempos.

As calúnias sobre a superstição e a violência da Idade Média começaram durante o Renascimento – apesar de a suposta “redescoberta da razão” ter sido na verdade um declínio em relação â racionalidade medieval. Basta dar uma vista de olhos sobre a política no Renascimento para se perceber que não se trata propriamente de um grande avanço.

Mas as calúnias foram reforçadas pela Reforma e pela Revolução Científica. São Edmund Campion foi enforcado e esquartejado por causa das suas crenças religiosas em Inglaterra em 1581, mas curiosamente não criticamos esse tipo de comportamento como sendo “tão reformista” ou “tão pré-modernismo”.

Mas a maior impostura na nossa história imaginada do Ocidente tem a ver com o Iluminismo. O verdadeiro Iluminismo apresentou-se sob várias formas. Algumas foram úteis – algo de que nos devemos lembrar quando precisarmos de antibiótico – e poderiam ter sido ainda mais se tivessem beneficiado de alguma continuidade com conhecimentos mais antigos. Muitas figuras do Iluminismo, mesmo que se tenham tornado deístas, continuavam a acreditar num Ser Supremo, na imortalidade da alma, no juízo final e na vida eterna no Céu ou no Inferno (ver o Vigário de Saboia de Rousseau). Sem esses mínimos, pensavam, a moralidade humana não teria rumo.

Mas o Iluminismo radical – a parte que Edmund Burke discerniu na Revolução Francesa e que descreveu como operando “com a metafísica de um caloiro e a matemática e aritmética de um cobrador de impostos”, continua connosco e fornece grande parte da banda sonora das nossas vidas. Vêmo-lo nas figuras públicas que parecem acreditar na existencia de curas conhecidas para todos os males sociais, que apenas não se aplicam por causa da má-vontade dos privilegiados ou a ignorância dos pobres, sendo que tanto uns como outros podem ser ignorados e, até, eliminados da conversa.  

Burke acrescentava que: “É notável, que num grande arranjamento de humanidade, não se encontra qualquer referência a qualquer coisa moral ou qualquer coisa política; nada que se relacione às preocupações, acções, paixões, ou interesses dos homens. Hominem non sapient [Eles não conhecem o homem].”

Desde então as coisas não melhoraram muito. Olhando à volta continuamos a ver que as grandes influências do Iluminismo para nós continuam a ser coisas como a ideia de que os “verdadeiros” interesses das pessoas são económicos e que tudo o resto é ilusão, loucura ou pior. É evidente que houve guerras travadas por razões económicas, mas são surpreendentemente poucas ao longo dos últimos séculos. Basta pensar na Primeira e Segunda Guerra Mundial, Coreia, Vietname, Afeganistão e Iraque.

Neste momento decorre uma guerra na Ucrânia que o nosso presidente pensa derivar de uma mentalidade “do século XIX” que, como sabem os sofisticados da comunidade internacional, nem compreende os seus próprios interesses. Ou seja, nós compreendemos Vladimir Putin melhor do que ele próprio. As elites bem-pensantes sabem que devíamos limitar-nos ao desenvolvimento económico e cooperação internacional  e, claro, sabemos que forma deve assumir essa cooperação, porque todos os objectivos humanos legítimos são já conhecidos: uma presunção tão Iluminista.
 
Edmund Campion, vítima do Iluminismo
Temos guerras entre o povo antigo de Israel e os habitantes muçulmanos de Gaza e da Cisjordânia, bem como entre as diferentes facções religiosas da Síria, Iraque, Líbia, Egipto, Sudão, Nigéria, etc. É tão deprimente – e tão Iluminista – pensar que os seres humanos se mantêm agarrados dessa forma à religião e à história. A não ser que, em vez de olharmos para o mundo pelo prisma dos nossos critérios olharmos, como diz Burke, para as “preocupações, acções, paixões e interesses dos homens” – os seres humanos verdadeiros e não aqueles que gostaríamos que existissem.

Quando pensamos desta forma começa a fazer sentido que as pessoas se agarrem à religião, família e pátria – e que estejam dispostos a defendê-las, pela força, se for caso disso, mesmo que isso não beneficie os seus “interesses económicos” – porque  a maioria das pessoas não se entusiasmam nem se inspiram em abstracções. Os homens simplesmente não são assim. É muito iluminista pensar que sim.

Ou melhor, essa é uma das contradições do Iluminismo. Porque se levássemos a sério os esforços para se reduzir o homem a um mero animal, essas ligações de matilha fariam todo o sentido. Foi Vladimir Soloviev que ironizou, certa vez, que a visão moderna é de que “todos descendemos de macacos, por isso amêmo-nos uns aos outros”.

Claro que se levássemos a sério a redução iluminista dos seres humanos a um mero animal complexo, ou mais ainda a uma série de interacções químicas complexas, não acreditaríamos em nenhuma daquelas coisas que verdadeiramente nos tornam humanos. E porque razão pensaríamos que algo que não passa de uma série de reacções químicas complexas tem direitos, liberdades ou objectivos para além do bem-estar físico? Os tecnocratas estão a investir em força nesse raciocínio.

Levou o seu tempo para que esta atitude iluminista entrasse no discurso público. Há correntes na nossa cultura – pós-modernas, neo-ortodoxas, filosóficas – que já compreenderam as limitações e os perigos deste desenvolvimento. Remam contra a maré, mas acabam muitas vezes por dar mais força ao cepticismo em vez de restaurar sentido de verdade mais rico do que um orgulhoso racionalismo anterior permitia.

Aquele pensamento antigo e medieval que suportava a ideia de que o ser humano é algo especial – enraizado num mundo que tinha um lugar especial para essa especialidade – pode ter sido banido da praça pública. Alguns até podem pensar que se trata de uma libertação. Mas essa é uma visão tão iluminista e à medida que as consequências se fizerem notar, poderá não tardar o dia em que sentimos saudades de um tempo menos iluminado.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 4 de Agosto de 2014)

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sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Agora aguentem-se Estado Islâmico!

Sabes que nunca fui grande fã, mas obrigado!
Não sei se foram as orações, o lobbying, ou simplesmente o impacto dos relatos e das imagens, mas finalmente vemos acção internacional no Iraque.

Os EUA mostraram que é só para isto que vale a pena ser uma superpotência e já começaram a lançar ajuda humanitária para ajudar os yazidis e iniciou também ataques contra o Estado Islâmico.

Washington: Caso tenham dificuldade em reconhecê-los, são os tipos que passam a vida a decapitar pessoas e a tirar fotos a segurar nas cabeças das vítimas, enquanto se riem.

Já agora, para quem sempre quis saber quem são e no que acreditam os yazidis, está aqui a informação toda. Saiba também porque é que os fundamentalistas os consideram satânicos.

Entretanto o primeiro-ministro do Iraque, outro dos responsáveis pela situação, uma vez que nem sequer consegue formar um Governo para fazer frente à ameaça, está sob ainda mais pressão para se demitir, depois de ter ouvido umas bocas fortes da parte do principal líder religioso dos xiitas.

O Papa Francisco, que foi criticado por ontem apenas ter mandado ler um documento em seu nome durante um briefing na Sala de Imprensa da Santa Sé, disse hoje que vai enviar um cardeal italiano para o representar junto dos refugiados. O Papa publicou também um tweet a pedir orações. É dirigido a “todos os homens e mulheres de boa vontade”, mas essas pessoas devem falar todas inglês, porque mais nenhuma das contas do Papa replicou a mensagem, nem sequer em árabe… vá lá malta da comunicação do Vaticano, estão todos de férias?

Se estão, ou não, não sei. Mas eu vou, a partir de agora. Os mails ficam suspensos, mas em caso de alguma notícia de última hora mais urgente, não vos deixarei sem o meu apoio! Não se esqueçam que há ainda o grupo do Facebook e o Twitter que vão sendo alimentados regularmente. 

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Ajuda para o Iraque... precisa-se!

Yezidis a enterrar crianças no Monte Sinjar
A cidade cristã mais importante do norte do Iraque já está nas mãos dos militantes do Estado Islâmico. A população inteira terá conseguido fugir, mas a situação está pior que nunca.

Enquanto chegam notícias de que pelo menos 40 crianças já morreram de sede no monte Sinjar, o Patriarca de Bagdad escreveu um apelo urgente a pedir uma intervenção internacional armada para salvar os perseguidos.


Continuem a rezar, mas quem puder que ajude financeiramente as organizações que estão a ajudar os refugiados.

Estes dois links foram-me dados pelo Mardean Isaac, o activista que entrevistei o outro dia. Sei que a Caritas também está a ajudar.

Assyrian Aid Society, uma organização independente que opera em Dohuk, para onde fugiram muitos cristãos.

ACERO, Assyrian Church of the East relief organisation.


quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

O Aborto e o Cancro da Mama

Matthew Hanley
Frequentemente aparecem estudos que contradizem aquilo que se pensava – até há pouco tempo – ser mais benéfico para a saúde. Quem é que consegue acompanhar as indicações sobre a quantidade ideal de café, colesterol e exercício? Chegámos a uma situação em que mais vale a atitude de Santo Inácio de Loyola, de indiferença para com os bens deste mundo, como a saúde e a riqueza. Mas a indiferença para com a saúde por parte das autoridades de saúde não é desse género.

Numa edição recente do New England Journal of Medicine encontra-se um artigo que vem no seguimento de vários num caso já conhecido como “as guerras das mamografias”. Essencialmente, conclui que os programas de rastreio mamográficos fazem mais mal que bem e que mais vale acabar com eles do que manter o status quo. Um conselho médico na Suíça analisou as provas e chegou a esta conclusão.

A primeira coisa que notaram foi que os estudos actualmente usados estão ultrapassados. O tratamento também melhorou imenso ao longo das últimas décadas, eliminando as vantagens modestas que se pensava que as mamografias ofereciam.

Depois, há efeitos secundários do procedimento, sobretudo os que se devem ao sobre-diagnóstico. O termo técnico é cancro “dormente”, que é detectado pelas mamografias mas que na verdade não constituem ameaça.

Um estudo canadiano recentemente publicado, com casos seguidos ao longo de 25 anos, descobriu que quase 22% dos cancros detectados por mamografias eram sobre-diagnósticos, que deram origem a tratamento desnecessário, incluindo cirurgia, radioterapia e quimioterapia, ou combinações dos mesmos. Os académicos canadianos concluíram também que as mamografias anuais não reduzem os índices de mortalidade. 

Estas conclusões serão surpreendentes para muitos, sobretudo porque as mulheres, no geral, tendem a sobrestimar radicalmente os benefícios dos rastreios mamográficos. Um estudo em larga escala determinou que as mulheres sobrestimavam oito vezes as vantagens dos rastreios e achavam que as mortes devidas à ausência de rastreio são 32 vezes superiores ao que realmente são.

A equipa suíça confessou que as suas conclusões têm sido recebidas com alguma hostilidade, mas contrapõem que sim, “é verdade que as conclusões alarmam as mulheres, mas tendo em conta as provas que encontrámos, não sabemos como é que podemos deixar de as alarmar”.

Nem toda a gente concorda e o debate prossegue. Mas parece justo concluir que as vantagens das mamografias parecem ser, actualmente, marginais. Para as mulheres de certas idades e para os seus médicos, compreende-se que seja um dilema complicado. É preciso avaliar os prós e contras e nem toda a gente chegará às mesmas conclusões.

Mas há uma coisa sobre a qual todos concordam, porque todos defendem os seus pontos de vista com base na ideia de que as mulheres merecem a informação mais rigorosa. Mas há uma excepção a este princípio, ainda por cima num tema que, ao contrário das mamografias, tem o potencial de diminuir os casos de cancro: a relação entre o aborto induzido e o cancro da mama.



Que bases é que existem para esta ligação? A esmagadora maioria dos estudos, desde 1957, indicam uma relação de causa-efeito. Todos os estudos estatisticamente significativos indicam uma ligação positiva e todos os que sugerem uma associação negativa são estatisticamente insignificantes.

Uma meta-análise, composta por 36 estudos efectuados em 14 províncias da China até 2012, revelou conclusões muito significativas. As mulheres com um historial de aborto provocado tinham um risco 44% superior de desenvolver cancro da mama em comparação com mulheres que não tinham esse factor de risco. Isto é, se o risco de se desenvolver um cancro da mama ao longo da vida toda for, digamos, de 10%, a realização de um aborto provocado faz aumentar o risco para 14,4%.

O estudo chinês confirma uma outra meta-análise que revelou um aumento de 30%. Mas é ainda mais grave. Não só existe um risco moderadamente maior como emergiu uma clara relação de “dose-efeito”. Isto significa que os riscos aumentam na medida em que aumenta a exposição à ameaça. A existência da relação de “dose-efeito” é tida como dando mais peso a uma teoria plausível. Esses estudos determinaram que o risco aumenta para 76% em mulheres que tenham feito dois abortos provocados e 89% em mulheres com três.

São dados significativos, mas não chegam para provar nada. Para isso precisamos de determinar um mecanismo fisiológico de acção. Mas também o temos. No fundo tudo se resume à exposição a estrogénio: quanto mais houver, maior o risco. Nas primeiras fases de uma gravidez a mulher está exposta a doses maciças de estrogénio, que espoletam a proliferação de um tipo de lóbulo mamário que é mais susceptível ao cancro. É por isso que as mulheres que dão à luz prematuramente, antes das 32 semanas, têm duas vezes maior risco de desenvolver cancro do peito. É só nas últimas semanas de uma gravidez típica que as outras hormonas começam a ajudar a transformar esses lóbulos vulneráveis em lóbulos resistentes ao cancro. Dar à luz, e isto ninguém contesta, é benéfico para a saúde.

Qualquer epidemiologista sério dirá que esta combinação de factores merece ser levado a sério. Mas em detrimento da honestidade intelectual as autoridades têm-se desdobrado em esforços para esconder a relação. Uma das formas de o fazer é misturar os abortos provocados com os espontâneos, que não são um factor de risco.

Em vez de esconder a verdade para não “alarmar” as mulheres, seria muito melhor corrigir este escândalo. As autoridades estão a enganar as mulheres quando dizem que, de acordo com os números, o aborto provocado não acarreta um risco acrescido de adoecer.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 31 de Julho 2014 em The Catholic Thing)

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terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Iraque, Iraque... pobre Iraque!


Cristão refugiado no Iraque
Faz sentido armar os cristãos iraquianos para poderem defender uma região autónoma? Alguns activistas acreditam que sim. Mardean Isaac, a residir em Londres, diz que nestes assuntos os cristãos no Médio Oriente não deviam ter de seguir os seus bispos.

É que os bispos discordam, tanto num ponto como no outro, como me disse há quase três anos o agora Patriarca dos Caldeus. Contudo, face ao agravamento das perseguições nos últimos dias, Louis Sako exige uma intervenção internacional.

Como de costume temos as transcrições completas da entrevista a Mardean Isaac. Numa primeira parte ele explica quem são os assírios, um termo que designa os cristãos daquela região, mas cuja utilização nem sempre é pacífica. Na segunda fala, então, do projecto de criação de uma região autónoma.

Não se esqueçam, entretanto, que amanhã é o dia de oração pelos cristãos iraquianos e leiam, se ainda não o fizeram, o excelente texto de David Warren sobre a perseguição que está a ter lugar.

Uma voz consistente de apoio aos cristãos perseguidos tem sido a da baronesa Warsi, no Reino Unido. Mas a única ministra muçulmana do actual Governo britânico apresentou hoje a sua demissão por não concordar com a posição de Cameron face ao conflito em Gaza.

Conheça ainda o plano de Hitler para raptar o Papa Pio XII e o cónego de Viseu que está prestes a fazer 100 anos. (Não, Hitler não queria raptar o cónego, que em 1939 nem era cónego ainda, mas já era padre).

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