terça-feira, 31 de março de 2015

Actualidade Religiosa: Figuras da Páscoa, Vias Sacras, vizinhos no Estado Islâmico

São Pôncio Pilatos? Para alguns, sim.
Já estamos na Semana Santa, auge do calendário cristão. Para melhor perceber a história da Paixão e da Páscoa, elaborámos uma interessante explicação sobre as personagens que compõem este quadro, incluindo não só os dados incluídos nos Evangelhos, como também alguns dados e factos apócrifos e interessantes. Leiam que vale bem a pena.

Na mesma linha, vejam esta reportagem vídeo sobre a Via Sacra, incluindo a história da devoção que marca tanto a vivência da Quaresma.

E há pessoas para quem a Quaresma não acabará esta semana, e nada tem a ver com calendários. São, entre outros, os refugiados no Médio Oriente para quem o sofrimento já dura há anos e promete durar bastante mais tempo. A Ajuda à Igreja que Sofre está no terreno e Catarina Martins fala do risco de desaparecer toda uma civilização.

Quem são os portugueses que estão no Estado Islâmico? Podiam ser os nossos vizinhos, diz Hugo Franco, o jornalista do Expresso que tem investigado a fundo esta questão e que foi entrevistado pelo meu colega Ricardo Rodrigues.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O que interessa o Iémen? e "Todo o mal tem um fim"

Houthis no Iémen: "We care a lot!"
Uma coligação de forças árabes prepara-se para intervir no Iémen. Eu sei o que estão a pensar… O que é que interessa o Iémen?! Foi por isso que escrevi este artigo, porque o Iémen interessa muito e, agora mais que nunca, podemos ver que grande parte do problema do Médio Oriente é o conflito entre o bloco xiita e o bloco sunita. Nesse sentido, o Iémen é apenas o mais recente e importante campo de batalha.

O Papa Francisco encontrou-se esta tarde com 150 sem-abrigo que estavam a ter uma visita guiada aos museus do Vaticano. Em Setembro vai à Casa Branca e encontrar-se-á com Barack Obama.

A Ajuda à Igreja que Sofre está de visita aos campos de refugiados no Líbano e no Iraque, onde “falta tudo menos a fé”.

A situação dos refugiados cristãos na Síria e no Líbano inspirou a organização a preparar uma Via Sacra Meditada pelas Famílias Refugiadas da Síria. Pode-se encomendar a Via Sacra directamente à AIS, mas há quem a esteja a passar à prática, como acontece no Porto, na Igreja do Marquês, no dia 30 de Março, pelas 21h15. Quem puder que apareça!

Em Portugal encontra-se por estes dias o paquistanês Paul Bhatti, activista pelos direitos das minorias, cujo irmão foi assassinado por defender o fim da lei da blasfémia. Bhatti acredita que a lei está destinada a acabar, porque “todo o mal tem um fim”. Aqui podem ler a transcrição integral da curta entrevista que lhe fiz e aconselho-vos ainda a ouvirem na Renascença a partir das 23h uma entrevista mais alargada, sobre outros temas, feita pelo meu colega José Pedro Frazão.

Resta dizer que Bhatti está em Lisboa para participar no Meeting, organizado pelo movimento Comunhão e Libertação. Aqui têm o programa completo e aconselho vivamente a participarem, se puderem.

"All evil has its end, and the blasphemy law is evil"

Full transcript of my interview with Paul Bhatti, ex-minister of Minorities in Pakistan and brother of Shahbaz Bhatti, who was killed for opposing the country's blasphemy law. See news story here (in Portuguese).

Transcrição integral da minha entrevista a Paul Bhatti, ex-ministro das minorias no Paquistão e irmão de Shahbaz Bhatti, morto em 2011 por se opor às leis da blasfémia. Ver reportagem aqui.
Bhatti está em Portugal para participar no Meeting Lisboa.


We hear a lot about the anti-blasphemy law in Pakistan. What is the situation at the moment?
The blasphemy law in Pakistan is one of the laws which has capital punishment. Anybody who violates this law is sentenced either to death or to a very long time in prison.

Unfortunately this law is often misused to settle personal scores. There are also many Muslims who have been victims of this persecution and these false accusations.

The general situation in Pakistan is very bad. We have political crisis, economic crisis, the country is unstable. This instability creates a fertile environment for those who want to impose their radical philosophy and who take advantage of these things, like false accusations to settle personal scores.

Unfortunately the religious minorities, in particular the Christians communities, belong to the most oppressed and marginalized sector of society, so they are easy victims of this. Doing that, it gives the message to entire world that they don't like Christians, they don't like minorities, they can do whatever they want, and they are in the media. 

This creates the kind of problems we are fighting, and my late brother Shahbaz's main objective was to promote religious freedom, bring in the mainstream of the society, the poor and marginalized sectors of the community. After his death I am carrying on his legacy, and we have a lot to do, but I think that there is hope, if we continue to follow this path. Our conviction is that we are right, we want to honour human dignity, we want to promote social justice, we are working for human equality.

But whereas there are false accusations and innocent victims, on the other hand there are hopes too. A lot of Muslim people support us, they share our feelings, they want to share the contribution to promote religious freedom and peace in the society. 

Do you believe that the anti-blasphemy laws might be abolished in the near future?
Surely. First of all, I am convinced that evil has its end, and this is evil. These things are evil. 

The second thing is that a lot of people of good faith want it to end. Now the sensibility of the international community, of a lot of good people in Pakistan, a lot of people who believe in religion... If these people come together, the opposition is rather small. I think sooner or later we will prevail.

The only thing is that the people who believe in justice, who believe in religious freedom, including the international community, have to unite. They should unite behind one platform and fight against the law, and that way it will end. But if they don't unite behind one platform, then they cannot get the advantage.

Could it be counterproductive for the international community and NGOs to criticize the law? Could that not make it more difficult to end the law as it makes it seem like the government is folding to Western pressure?
You are very right. I agree.

Raising one's voice for those who cannot raise their voice is good. But on the other hand we have to take concrete steps. These are, you have to enforce, support the local community to stand by themselves, to make them strong so that they can defend themselves and raise their voice. The basic problem is illiteracy, poverty and political representation of the religious minorities, including Christians, in the highest forum of society. 

We have to work along those lines so that people can come into the mainstream of society and do all these things.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Pizza para o Papa e Padre Condenado

Papa recebe Pizza em andamento
O ex-pároco da Golegã foi condenado hoje de dois crimes de abuso de menores. Apanhou 14 meses, mas de pena suspensa. É o mais recente caso envolvendo abusos na Igreja Portuguesa, recordo aos interessados que vou mantendo uma cronologia destes casos no blogue.

Por falar em casos de abusos, o Papa aceitou a renúncia do antigo Arcebispo de Edimburgo a todas as honras e privilégios do cargo de cardeal. Não é a primeira vez que um cardeal deixa de o ser, mas ainda assim é uma coisa muito rara.

Hoje o Papa Francisco voltou a criticar o desemprego, mas também recordou a publicação do Evangelium Vitae, por parte de João Paulo II, neste que é o dia Internacional do Nascituro.

Recentemente o Papa disse que às vezes só lhe apetecia ir comer uma pizza. Não é fácil, mas na sua visita a Nápoles um cozinheiro decidiu levar a pizza até ele.

O Boko Haram é suspeito de ter raptado mais meio milhar de pessoas na Nigéria, enquanto a Turquia afirma que já impediu 2,550 de se juntar ao Estado Islâmico.

Será que a fé é incompatível com o bem-estar material? Essa é a questão a que responde David G. Bonagura no artigo desta semana do The Catholic Thing em português.

A Fé pode sobreviver no “Primeiro Mundo”?

David G. Bonagura Jr.
“Com a subida dos rendimentos, descem os campanários… A felicidade chega e Deus põe-se a andar”.

Olhando para o chamado “primeiro mundo”, esta afirmação, no geral, parece ter algum mérito. Ao longo dos últimos séculos, à medida que os nossos confortos materiais se multiplicaram lentamente, o fervor religioso tendeu a diminuir. Mas este declínio não aconteceu da mesma forma nas partes menos abastadas do mundo. Uma vez que esta vaga de secularismo no mundo desenvolvido parece ter coincidido com uma era de avanço tecnológico e material, parece adequado perguntar se a fé religiosa pode sequer sobreviver neste clima.

A aparente incompatibilidade entre a fé e o conforto humano não é nova. O próprio Senhor anteviu esta tensão fazendo o aviso: “É mais fácil a um camelo passar no buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”, (Mt. 19,24). Esta admoestação seguiu-se à conversa entre Jesus e o jovem rico, que preferiu regressar triste para os seus muitos bens do que seguir Jesus.

Por outro lado, a fé parece ser mais firme quando as pessoas estão necessitadas. No seu desespero, dez leprosos procuraram Jesus. Satisfeitos os seus pedidos, apenas um se lembrou de prestar homenagem ao seu Salvador. A inspiração heróica dos mártires incentivou a fé de muitos crentes durante os tempos de opressão. Nos nossos dias, as Igrejas Católicas estavam significativamente mais cheias ao meio-dia de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, do que na mesma hora uma semana antes ou nas terças-feiras seguintes.

Mesmo a nossa prática quaresmal parece apontar nesta direcção. Com o jejum privamo-nos deliberadamente de comida e outros confortos físicos para incentivar o crescimento espiritual. Na primeira semana da Quaresma pedimos a Deus: “Fazei que a nossa alma, purificada pela penitência corporal, resplandeça cada vez mais com a luz da vossa presença”.

Teria Marx razão? Será que a religião é o ópio do povo, destinado a ser erradicado mal se obtenha a quantidade certa de riqueza e bem-estar material? A fé no mundo desenvolvido e cada vez mais abastado está destinada a ser eliminada?

Em primeiro lugar, não há nada de errado com os bens materiais ou confortos físicos, em si. Depois, até ver, a fé tem claramente sobrevivido à disseminação de bens de luxo e à secularização. Muitos continuam a crer, mesmo de forma fervorosa, incluindo algumas das pessoas mais ricas e confortáveis de entre nós. Há paróquias e regiões no mundo desenvolvido onde a prática religiosa é fervorosa e há ricos e pobres que continuam a responder ao chamamento das vocações religiosas. Por isso não parece ser o caso que a riqueza e o conforto sejam incompatíveis com a fé.

Mas parece justo concluir que o estilo de vida do mundo desenvolvido, como o conhecemos agora, tem o potencial para ser hostil à fé. Os nossos corações irrequietos e destinados a Deus, nas palavras de Santo Agostinho, podem facilmente ser distraídos (no sentido literal de “arrastados para longe”) pela disponibilidade geral de confortos, conveniências e remédios que prometem a felicidade. Por entre o ritmo de vida incansável e o barulho de fundo constante do nosso mundo, a voz de Deus, que prefere o silêncio e a quietude, torna-se mais difícil de ouvir.

Generation Smartphone - No need for God?
Mas o primeiro mundo é bem mais do que um aglomerado de coisas, barulhos e actividades. O poder da tecnologia e dos bens materiais deu lugar a um espírito único, uma característica da era moderna que desembocou no mundo moderno: O serviço e a adoração de nós próprios como fim último para o qual estes bens existem. Em vez de encarar o nosso progresso como forma de construir o Reino de Deus, o mundo desenvolvido preferiu usar a tecnologia para banir Deus, numa tentativa de nos tornarmos soberanos auto-suficientes do Universo. Enquanto sociedade, permitimos que os materiais nos conduzissem ao materialismo – a crença de que apenas aquilo que é físico e tangível tem verdadeiro significado.

Neste ambiente, é difícil para uma fé num Deus invisível e imaterial, que não promete a eliminação dos nossos sofrimentos, mas a dádiva de um tipo de união com ele actualmente incompreensível, ganhar raízes em mentes já por si cativadas por bens materiais e as suas promessas. Imaginem a reacção de um adolescente típico à descrição das visões beatíficas enquanto o seu smartphone brilha com todo o tipo de imagens e mensagens. Claro que há adolescentes que perceberam o vazio do materialismo actual e abraçaram a fé, mas são relativamente poucos.

Hoje os inimigos da fé do mundo desenvolvido são tão formidáveis como em qualquer altura da história da salvação. E esta história demonstra que os católicos têm obtido os seus maiores sucessos na evangelização de povos inteiros quando motivados por duas crenças profundas: Um grande amor por Cristo, ao ponto de martírio, e o entendimento de que aqueles que encontram não podem ser salvos se não aceitarem o Evangelho.

Nosso Senhor prometeu que as portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja, mas isso não garante que as almas permaneçam dentro dela. Um número preocupante de concidadãos no mundo desenvolvido ouviram o Evangelho mas não escutaram. Se os nossos esforços de evangelização não forem tão zelosos como os dos missionários do passado, o mundo desenvolvido poderá tornar-se a razão da pergunta preocupante de Jesus: “Quando filho do homem vier, encontrará fé sobre a terra?” (Lc. 18,8).


David G. Bonagura, Jr. é professor assistente de Teologia no Seminário da Imaculada Conceição, em Huntington, Nova Iorque.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 22 de Março de 2015 no The Catholic Thing)

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quarta-feira, 18 de março de 2015

Terror na Tunísia e o direito a nascer

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Novo ataque terrorista, desta feita na Tunísia. Tendo em conta o que poderia ter acontecido, o rol de 21 mortos não é o pior cenário… Nada que surpreenda quem sabe que na Tunísia, a par de muitos turistas, há muito radicalismo.

Partiu hoje para o Líbano e para o Iraque uma delegação da fundação Ajuda à Igreja que Sofre, para averiguar no terreno das condições dos refugiados da guerra na Síria e no Iraque. A presidente da AIS Portugal acompanha o grupo.

De vez em quando ouvem-se pessoas a queixar-se de que o Papa não fala o suficiente sobre questões como o aborto, mas a verdade é que Francisco já se referiu várias vezes ao tema e voltou a fazê-lo hoje, lamentando que a sociedade trate mal as crianças, privando-as até do direito a nascer.

Por falar em direito a nascer, há uma sessão de esclarecimento sobre a iniciativa legislativa de cidadãos que visa restringir a lei do aborto. É amanhã, em Sete Rios, para quem quiser saber mais.

Francisco escreveu ontem uma carta aos nigerianos, solidarizando-se com as vítimas do terrorismo do Boko Haram.

E esta quarta-feira publicamos mais um artigo do The Catholic Thing em português. O filósofo Daniel McInerny explica porque é que não se pode justificar o casamento homossexual com base no direito natural. O direito natural às vezes parece estar “fora de moda”, mas é um conceito crucial para o Cristianismo, e não só, diria mesmo para uma noção da dignidade humana.

Homossexualidade e Direito Natural

Daniel McInerny
No âmbito do seu corajoso esforço para proteger os estudantes católicos da sua diocese dos efeitos perniciosos da agenda homossexual, o Arcebispo Salvatore Cordileone, de São Francisco, invocou o direito natural para sublinhar a inaceitabilidade das relações homossexuais e do casamento homossexual.

Mas Gary Gutting, professor de Filosofia na Universidade de Notre Dame e colunista regular no New York Times, questionou a forma como o arcebispo compreende o direito natural. Ele acredita que, bem entendido, o direito natural apoia a prática e o casamento homossexual. Gutting está totalmente errado nesta sua visão e é importante que se perceba porquê.

Em primeiro lugar, porém, é preciso pegar em duas questões relativas ao direito natural. Como é que o direito natural se relaciona com a fé? E como é que funcionam os argumentos do direito natural?

O direito natural não é um conceito especificamente católico. Na praça pública, costumam ser os católicos a invocá-lo, mas isso é só porque costumam ter uma apreciação robusta da integridade e abrangência da razão natural – a utilização das nossas mentes independentemente de revelações divinas.

Esta luz natural do nosso intelecto é complementada e aperfeiçoada pelas revelações de Deus, especialmente pelos dogmas da nossa fé. Mas esta luz sobrenatural não diminui de forma alguma a integridade da razão natural, que é capaz de discernir as leis que governam o exercício virtuoso das nossas capacidades humanas.

Resumindo, o direito natural depende da razão e, por isso, está ao alcance, em princípio, das mentes de todo e qualquer ser humano, seja católico ou não.

O professor Gutting aprecia esta distinção. Ele não confunde os argumentos de direito natural com a teologia revelada. Na sua resposta ao arcebispo Cordileone, o principal objectivo é confrontar os seus argumentos no terreno dos princípios naturais ou filosóficos. (Depois, Gutting recorre às escrituras para atacar os argumentos contra a homossexualidade, mas deixemos isso para os biblistas).

Então como é que funcionam os argumentos do direito natural? Para responder a isto, temos primeiro de ver o que significa qualquer lei ou preceito. “A noção de um preceito”, escreve São Tomás de Aquino, “significa a ordem para um fim, na medida em que aquilo que é ordenado é necessário ou expediente para um fim”.

De igual modo, uma lei ou um preceito natural significa aquilo que é necessário ou expediente para um dos nossos fins naturais. E quais são os fins naturais do ser humano? São os bens que aperfeiçoam a nossa natureza, os bens para os quais fomos criados e que a nossa natureza anseia antes sequer de tomarmos decisões particulares: bens como a vida, a família, a educação, amizade, comunidade política, verdade e, acima de tudo, a verdade sobre Deus.

Um argumento de lei natural parte da examinação dos bens que aperfeiçoam ou cumprem a natureza humana. Estes argumentos procuram clarificar as leis ou os preceitos que governam a busca necessária ou expediente destes bens.

Gutting sustenta a sua crença de que o direito natural apoia a agenda gay em dois argumentos, o primeiro dos quais revela a fraqueza de ambos. Este argumento prende-se com aquilo que Gutting entende como sendo os efeitos benéficos sexo “não reprodutivo”, isto é, relações homossexuais.

Gary Gutting
O seu argumento é colocado em forma de pergunta: “Mesmo que o sexo não reprodutivo fosse de alguma forma menos ‘natural’ que o reprodutivo, não poderia desempenhar um papel positivo num amor humanamente satisfatório* entre duas pessoas do mesmo sexo?”

Tudo depende do que Gutting quer dizer por “satisfatório”. Como acabámos de ver, os preceitos da lei natural governam a busca de bens que satisfazem a nossa natureza humana. O professor Gutting limita-se a assumir uma noção particular de satisfação humana, concordando com o filósofo John Corvino que: “Uma relação homossexual, tal como uma heterossexual, pode ser um lugar significativo de sentido, crescimento, satisfação. Pode realizar uma variedade de bens genuinamente humanos; pode dar bom fruto… [para casais hétero ou homossexuais] o sexo é uma forma única e poderosa de edificar, celebrar e repor a intimidade”.

No seu ensaio, Gutting não apresenta argumentos neste sentido, dando como adquirido que esta é uma descrição genuína da satisfação para a qual nos impulsiona o direito natural. Mas a lei natural não está direccionada a uma qualquer noção de satisfação, mas sim, e apenas, à satisfação das nossas inclinações naturais, anteriores à escolha.

Mesmo que aceitássemos que uma relação homossexual possa ser um lugar de “sentido” que “repõe a intimidade”, continuaríamos com a questão de saber se este “sentido” e “intimidade” estão em sintonia com o verdadeiro florescimento da nossa natureza. Sem dúvida que os adúlteros também encontram algum “sentido” e “intimidade” nos seus casos extraconjugais, será isto base suficiente para declarar que o adultério satisfaz genuinamente a natureza humana e, por isso, é permissível à luz do direito natural?

Ao tentar colocar a tradição do direito natural no campo da agenda homossexual, Gutting insere no seu argumento uma noção de satisfação que nenhum defensor do direito natural aceitaria e, com base nesse subterfúgio, declara vitória.

Não deixa de ser interessante que no seu artigo Gutting nunca utiliza as palavras “casamento” e “família” como sendo sequer uma parte da satisfação da sexualidade humana. O mais próximo que chega são referências a “gravidez” e “reprodução”, como sendo aquilo que a tradição do direito natural indica como o propósito das relações sexuais.

Mas esta é uma deturpação gritante. O propósito natural do sexo não é, por si só, uma gravidez, mas sim um lar. E por “lar” estou-me a referir a um marido e uma mulher, casados, cujos actos procriadores resultaram, oxalá, no dom de crianças barulhentas, cansativas e exigentes, pelas quais os membros do casal estão dispostos a sacrificar as suas vidas.

Se Gutting não vai referir o bem do lar, então não está a falar do sexo no sentido usado pela tradição do direito natural.

Logo, a razão não está do seu lado na sua tentativa de colocar essa tradição ao serviço da agenda homossexual.


*O termo usado em inglês é “fulfilling”. A palavra “satisfatório” pode parecer ser referente apenas às necessidades ou desejos físicos ou superficiais, mas neste contexto deve ser entendido como algo que satisfaz inteiramente o homem, também a um nível mais profundo e espiritual.


Daniel McInerny é filósofo e autor de obras de ficção para crianças e adultos. Mais informação em danielmcinerny.com.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 14 de Março de 2015 em The Catholic Thing)

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