quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Escócia, Madeira, Iraque e Sri Lanka

Dilema familiar por causa do referendo na Escócia
"We don't talk much anymore"
Amanhã os escoceses decidem se querem manter-se no Reino Unido ou não. Os bispos católicos apelam a que, a favor ou contra, todos vão votar.

A diocese do Funchal celebra 500 anos. A histórica e importante diocese está a assinalar a data como deve ser.

O Papa aprovou a canonização de um indo-português que evangelizou o Sri Lanka, dispensando o reconhecimento de um segundo milagre.

No dia 28 de Setembro o Papa vai receber uma delegação de avós. Entre eles estará um casal iraquiano, em representação dos cristãos perseguidos naquele país.

Por falar em Iraque, o artigo desta semana do The Catholic Thing levanta a questão do debate que a Igreja tem de ter. O uso da força contra o Estado Islâmico entra na definição de guerra justa? Parece-me evidente a resposta, estou com Robert Royal. Não deixem de ler, mesmo.

Entretanto deixo também o link para o artigo da semana passada em que o Pe. Mark Pilon se insurge contra os políticos católicos que defendem ou votam a favor do aborto. É precisamente porque nos políticos raramente nos podemos fiar nestes assuntos que todos os que defendem a vida devem ir à Caminhada pela Vida em Outubro. TODOS!

O que a Guerra é Realmente

Tem surgido alguma ambiguidade, tanto no Vaticano como na Casa Branca, sobre o que se deve fazer acerca da barbaridade que está a ocorrer no Médio Oriente e que tem chocado todo o mundo. Nem se sabe bem o que se lhe deve chamar.

Começou com um artigo escrito pelo Pe. Luciano Larivera, S.J., no La Civiltà Cattolica (uma revista jesuíta publicada em Roma e que é considerada uma referência, se bem que indirecta, do pensamento do Papa): “Obviamente, para promover a paz é necessário saber o que a guerra é na realidade, e não aquilo que gostaríamos que fosse. É fundamental estudar e perceber como é que o Estado Islâmico luta. A sua é uma guerra de religião e aniquilação”.

Isto é simples realismo cristão e a mais pura verdade sobre o actual conflito, que os nossos líderes americanos parecem recusar-se a aceitar. Mas depois de muitas distorções nos media, o padre Antonio Spadaro, SJ, o editor chefe do Civiltà, explicou: “O Estado Islâmico pensa que é uma ‘guerra de religião’, mas nós devemos ter o cuidado de não pensar dessa forma.”

Tudo bem. Há muito que o Cristianismo abandonou a ideia de que é legítimo o uso da força para promover a fé – como Bento XVI sublinhou no seu discurso profético em Ratisbona. Mas não deixamos de ter a responsabilidade de dizer a verdade sobre o que se está a passar bem como encarar a questão de como responder a uma força agressiva que mata os inocentes, escraviza sexualmente as mulheres, decapita ocidentais em público e declara ter como objectivo a imposição, pela força das armas, da sua religião aos não-crentes.

Entramos aqui num terreno sempre polémico: onde é que deixamos os princípios morais absolutos – que são a primeira competência da Igreja – e entramos na aplicação prudente desses princípios, em contextos complicados. Excepto em casos de agressão injusta, o juízo sobre o uso legítimo da força cabe aos líderes seculares e não aos papas nem aos bispos.

O mundo secular raramente compreende a distinção. No voo de regresso da Coreia, em meados de Agosto, o Papa disse: “É lícito travar um agressor injusto. Sublinho o verbo: travar. Não digo bombardear nem fazer guerra, digo impedir de alguma maneira”.

Os media seculares, e mesmo alguns órgãos católicos, reagiram mal: Se não é para bombardear, então qual é a estratégia do Papa? Como se o Sumo Pontífice tivesse de ter uma estratégia militar, qual presidente dos EUA. A minha aposta é de que o Papa estava a afirmar a necessidade de agir – naturalmente através do uso da força –, mas deixando claro que, apesar do horror da violência do Estado Islâmico, não cabe ao Papa defender os bombardeamentos americanos nem as decisões práticas de qualquer outra nação.

Mas na semana passada disse à Comunidade de Sant’Egidio: “A guerra nunca é uma forma satisfatória de corrigir injustiças... A guerra conduz as pessoas a uma espiral de violência que se torna difícil de controlar. Destrói aquilo que levou gerações a estabelecer e abre caminho a conflitos e injustiças ainda piores”.

"Diálogo" ao estilo do Estado Islâmico
Calculo que na emoção do momento, como tende a fazer, Francisco foi um bocadinho mais longe do que queria. O pensamento moral católico há muito que aceitou que as autoridades católicas têm por vezes a responsabilidade de recorrer à força. E temos exemplos de guerras boas, como a derrota dos nazis pelos aliados. Como explica o Catecismo da Igreja Católica:

[2307]Cada cidadão e cada governante deve trabalhar no sentido de evitar as guerras.

Apesar desta admoestação da Igreja, por vezes torna-se necessário usar a força para obter os fins da justiça. Este é um direito, e o dever, de todos os que têm responsabilidade pelos outros, tal como líderes civis e forças policiais. Enquanto os indivíduos têm o direito de renunciar a toda a violência, aqueles que preservam a justiça não o podem fazer, embora deva ser sempre um último recurso, “falhados todos os esforços de paz”.

É claro que existem os limites das condições sobre a decisão de ir para a guerra (ius in bellum) e o comportamento durante o combate (ius in bello). O juízo prudente dos líderes civis nestas matérias é, justamente, alvo de escrutínio cuidadoso. Em retrospectiva, muitos dos que acreditavam que Saddam Hussein possuía armas de destruição maciça vieram mais tarde a concluir que a decisão do presidente Bush de atacar o Iraque foi um erro. Da mesma forma, muitos consideram agora que a decisão de Obama de retirar as tropas do Iraque foi um erro e que, por isso, ele depara-se agora com limites à sua acção contra o Estado Islâmico que podem bem tornar a sua estratégia inútil. Este é um problema grave, uma vez que um dos critérios para a guerra justa é a existência de uma possibilidade razoável de sucesso, que é como quem diz, a existência de um benefício proporcional na decisão de matar pessoas e partir coisas.

É claro que o Papa sente a tragédia de todas as guerras e o pecado que está por detrás delas: “Ganância, intolerância, sede de poder... Estes motivos estão por detrás da decisão para ir para a guerra e, demasiadas vezes são suportadas por uma ideologia; mas em primeiro lugar há uma paixão ou um impulso distorcidos. A ideologia é apresentada como justificação quando não existe qualquer ideologia, mas apenas a resposta de Caim: ‘Que me interessa isso? Serei eu o guarda do meu irmão?’”

Noutras alturas, porém, ele e a Igreja reconhecem que o “uso justo da força” – caso queiram evitar a palavra “Guerra”, como parece ser a vontade da Casa Branca – serve precisamente para podermos ser os “guardas do nosso irmão”. Talvez seja necessário recordar o Vaticano disso. Irmãos cristãos, yazidis, curdos e muçulmanos de várias confissões, foram expulsos das suas casas, mortos ou marcados para genocídio. Não é possível negociar com os agressores. Não há diálogo ao alcance dos homens que seja capaz de fazer a menor diferença na mortandade.

Podemos preferir que não fosse assim. Podemos lamentar a herança da história e da violência do passado. Podemos reconhecer os nossos próprios pecados e pedir a Deus uma solução que não somos capazes de encontrar sozinhos. Mas entretanto temos apenas os meios ao nosso alcance e não podemos demitir-nos da responsabilidade de proteger aqueles que sofrem agressões.

Mesmo que não possamos fazer nada, podemos pelo menos dizer a verdade, porque: “para promover a paz é necessário saber o que a guerra é na realidade, e não aquilo que gostaríamos que fosse”.

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

Papa ameaçado na visita à Albânia?

Albânia é o próximo destino do Papa Francisco
O Papa Francisco corre perigo na sua visita à Albânia no próximo domingo? O embaixador iraquiano junto da Santa Sé diz que o Estado Islâmico quer matar Francisco, que as ameaças são credíveis e que as visitas a estados muçulmanos são um perigo.

Antes de entrarem todos em pânico, lembrem-se que ao embaixador do Iraque interessa continuar a pintar o Estado Islâmico com as piores cores possíveis para manter a pressão sobre a comunidade internacional para derrotar o grupo. Não é que não sejam terríveis, é só para enquadrar melhor as declarações.

Ainda sobre o Estado Islâmico, os patriarcas do Médio Oriente encontraram-se esta terça-feira em Genebra e, em conjunto, apelam aos líderes religiosos e políticos da região para condenarem mais veementemente a perseguição aos cristãos. O Patriarca caldeu quer botas no terreno para combater os terroristas, mas prefere que sejam “botas árabes”.

Na senda de ontem, fiquem com os links para mais dois dos artigos do The Catholic Thing que publiquei durante as férias. Em “Qual é o objectivo?”, Anthony Esolen pergunta a todos os que procuram impor mudanças sociais qual é o tipo de sociedade que querem criar. São o tipo de perguntas que tendem a ficar sem resposta…

Já em “Cardeal Müller: Um Grande Líder Católico”, Filip Mazurczak tece um grande elogio ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Quer gostem ou não de tudo o que ele diz ou defende, é um homem que urge conhecer bem.

Por fim, não se esqueçam de dizer a todos os vossos amigos e conhecidos para aparecerem na Caminhada Pela Vida, no dia 4 de Outubro. E já agora, acedam à página no Facebook e façam um like!

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

Caminhada pela Vida e homenagem a David Haines

Findas as minhas longas férias, estou de volta para vos trazer a mais importante informação religiosa!

Começo então por lançar-vos um desafio. No dia 4 de Outubro muitos vão optar por se juntar em Lisboa para caminhar em defesa da Vida. São umas horas do vosso sábado, por aquela é a mais importante causa dos nossos tempos. Não percam, não deixem de aparecer, que eu não deixarei de vos avisar, muito, até lá. Encontram mais informação no site da caminhada e na página do Facebook.

Quanto a notícias do dia, começamos devagar. O Cardeal Vincent Nichols, de Westminster, prestou hoje homenagem a David Haines, a mais recente vítima ocidental do Estado Islâmico. É uma homenagem justa e simpática, que contrasta a vida de quem se dedicou a ajudar os outros à selvajaria de quem vive e respira morte.

Durante o fim-de-semana o Papa presidiu ao casamento de 20 casais em Roma, um gesto raro, mas muito importante nas vésperas de um sínodo sobre a família.

Ainda sobre este tema, o novo bispo de Aveiro pediu que as famílias não se fechem sobre si mesmas. D. António Moiteiro tomou posse ontem.

Ao longo das últimas semanas continuaram a publicar-se artigos do The Catholic Thing em português. Na primeira que publiquei durante as férias, Robert Royal lamenta a forma como falamos do Iluminismo como se fosse a época áurea da história do Ocidente.

Noutro artigo Howard Kainz analisa o livro “A História da Igreja”, de James Hitchcock, que refere, entre outras coisas, que todos os concílios da Igreja tem sido momentos de tensão e dificuldade.

Por hoje fiquem-se com isto, que amanhã espero voltar com mais informação interessante!

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

Joe Biden e as Portas do Inferno

Pe. Mark A. Pilon
Há dias o vice-presidente Joe Biden declarou solenemente que os bárbaros que decapitaram o jornalista Jim Foley seriam perseguidos até às portas do Inferno e depois repetiu, duas vezes, que era no inferno que iriam residir. A primeira parte da afirmação é claramente uma metáfora que indica que os EUA não vão desistir de trazer esta gente até à justiça. Mas a segunda parte é bastante diferente, Biden declarou que os terroristas estão destinados a ir para o Inferno, por causa do assassinato bárbaro deste jornalista americano, e tantos outros.

Biden abriu as portas a um tipo de juízo muito severo. Pessoalmente, concordo que estes homens são verdadeiros bárbaros e que os seus crimes merecem a punição do Inferno – mas estou obrigado a acrescentar: a não ser que se arrependam. Este já é um juizo moral com uma condição e não um juizo final escatológico sobre o destino final de tais monstros.

Mas não podemos dizer algo parecido de Joe Biden? O vice-presidente é um aliado firme do movimento bárbaro que, neste país e durante o seu mandato, conduziu à morte – também grotesca, de, literalmente, milhóes de seres humanos por nascer. Não interessa o que Biden diz serem as suas opiniões pessoais sobre o aborto, se é pessoalmente contra estes crimes contra a humanidade ou não. Fazendo eco da Escritura, podemos dizer que o ISIS matou as suas dezenas de milhares enquanto os médicos americanos cooperaram com as mães americanas para matar dezenas de milhões. 

Contudo, enquanto os islamitas decidiram transformar a sua barbárie num espectáculo público, as barbaridades dos abortistas tendem a ser escondidas e só se tornam ligeiramente visíveis, mesmo hoje, quando pessoas como o Dr. Gosnell são acusados e condenados.

Biden faz parte deste crime através do seu apoio político. Como a maioria dos católicos que apoiam o lobby pró-abortista e a legislação através dos seus votos, Biden parece não ter sensibilidade para a dimensão e a natureza do mal em que está envolvido, verdadeira e responsavelmente envolvido, mesmo que apenas indirectamente. Embora ele não encoraje ninguém a abortar, nem financie os abortos de ninguém, o seu apoio activo tem feito dele um colaborador em milhões de mortes. Tal como Nancy Pelosi, outra auto-proclamada católica, Biden parece não ter qualquer noção da sua responsabilidade moral.

Cristo ensinou que nem todos aqueles que dizem “Senhor, Senhor”, entrarão no Reino, mas apenas aqueles que fazem a vontade do Pai. Certamente não é a vontade do pai que os líderes políticos cooperem em abortos. Biden, Pelosi e outros católicos que se consideram católicos de boa fé correm o risco de ouvir as palavras que Jesus proclama no final do sermão da montanha: “E então lhes direi abertamente: ‘Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’”. A colaboração ou prática persistente da imoralidade resulta sempre na cegueira moral.


Um muçulmano que se oponha firmemente ao aborto poderia facilmente virar o bico ao prego a Biden e dizer-lhe que é ele o bárbaro que vai parar ao Inferno. Um católico deve colocar as coisas de outra maneira. Deveria usar da caridade para dizer a Biden que residirá no Inferno caso não se arrependa nem faça reparação pela sua colaboração com este grande mal moral. Porque é que nenhum bispo teve a coragem de dizer a Biden e a Pelosi, e a todos os outros católicos colaboracionistas, que arriscam passar a eternidade no Inferno se não se arrependerem? A não ser que Jesus tenha errado quando censurou os fariseus, não há mal nenhum em avisar aqueles que colaboram com o mal moral que arriscam o Inferno caso não se arrependam.

Suponho que os bispos estejam a sofrer de correcção política. Ou então têm uma noção errada da relação entre Estado e Igreja. Mas é provavel que a maioria dos bispos tenha adoptado, de facto, uma noção subjectiva de consciência, a ideia de que a consciência acaba por triunfar sobre a autoridade moral da Igreja. Parece ser isso o que está por detrás da recusa em negar a comunhão a políticos que apoiam o aborto. Partem do princípio que não podem nunca julgar a responsabilidade destes políticos pelas suas acções. O Direito Canónico não exige qualquer juízo final moral para negar a Sagrada Comunhão, apenas o exige quando se considera que certos católicos são culpados de uma acção pública objectivamente escandalosa, contrária à lei moral num assunto grave.

Mas penso que o problema é mais profundo que esta leitura obviamente errada do Direito Canónico. Muitos bispos consideram que uma pessoa pode ter uma consciência recta e moralmente boa, mesmo quando está objectivamente em erro – e sabendo bem que a autoridade da Igreja tem considerado, de forma consistente, que uma acção moral é gravemente errada. Por outras palavras, a formação subjectiva da consciência vence sempre a autoridade moral na determinação da responsabilidade moral, quando estiverem os dois em conflito.

Esta abordagem à consciência moral tem sido a base teórica da “solução pastoral” para a rejeição em massa dos ensinamentos da Igreja sobre contracepção ao longo dos últimos cinquenta anos. A consequência natural, claro, será a total subjectivização da lei moral, como as igrejas protestantes já aprenderam. É por isso que estamos na posição em que estamos no que diz respeito à responsabilidade dos Joe Bidens e das Nancy Pelosis. Eles continuam cegamente a percorrer a estrada que conduz à perdição, enquanto os bispos continuam a manter-se em silêncio, recusando a admoestar publicamente o seu rebanho. Chamam a isto caridade pastoral? 


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quart-feira, 10 de Setembo de 2014 em The Catholic Thing)


© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. 
Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Cardeal Müller: Um Grande Líder Católico

(Por Filip Mazurczak)
Dos dezanove cardeais que o Papa Francisco criou no seu primeiro consistório, nenhum tem sido tão falado como Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Amigo tanto de Bento XVI como de Gustavo Gutierrez, é um prodígio e tem uma mundivisão teológica consistente, na qual cabem tanto o amor pela verdade como uma firme solidariedade com os pobres.

Tendo em conta a forma como a imprensa caricaturizava o Cardeal Joseph Ratzinger, como um Panzerkardinal alemão, combatendo a heresia com uma disciplina prussiana, a chegada de Müller parece um caso de déjà vu. Tem atraído críticas não só da imprensa secular, mas também daqueles católicos que querem uma Igreja morna, que evite os temas fracturantes. Criticando a forma como Müller defendeu o ensinamento da Igreja sobre comunhão para divorciados e recasados, o Cardeal hondureño Oscar Rodriguez Maradiaga disse que o prefeito da CDF “vê o mundo a preto e branco” como um “professor de teologia alemão”.

Apesar das palavras de Maradiaga, a Igreja alemã não tem sido particularmente ortodoxa nos últimos anos. Foi o cardeal alemão Walter Kasper que começou a discussão para redefinir a prática da Igreja em relação ao acesso dos recasados à comunhão. Müller compreende que os ensinamentos da Igreja sobre assuntos morais não podem ser mudados e desfez tais propostas de forma brilhante no L’Osservatore Romano e noutros lados.

Numa livro-entrevista com o jornalista espanhol Carlos Granados (a ser publicado em inglês no Outono), disse que: “A Igreja não pode responder aos desafios do mundo moderno com uma adaptação pragmática... Somos chamados a escolher a audácia profética do martírio”. Da mesma forma, opõe-se à comunhão para políticos pro-aborto e defende o direito dos médicos recusarem fazer abortos legais.

Müller é amigo próximo de Bento XVI e editou as suas obras completas. Tal como o Papa alemão, já sublinhou repetidamente a necessidade do Ocidente regressar às suas raízes. O ano passado, durante uma homilia interrompida diversas vezes por aplausos, no Templo Nacional da Divina Providência, em Varsóvia, fez esse mesmo pedido: “A Polónia ainda não morreu! A Europa ainda não morreu, desde que continuemos a acreditar, a confiar e a amar!”

Entretanto, Müller continua apostado em limpar a Igreja de elementos que distorcem os seus ensinamentos. Por exemplo, enquanto as freiras americanas do LCWR continuam a rejeitar os ensinamentos da Igreja sobre praticamente tudo, o cardeal deu seguimento à investigação ordenada pelo seu antecessor, o Cardeal Levada, e convidou-as repetidamente à obediência, acusando-as de “provocação aberta” a Roma.

Müller censurou o LCWR por homenagear a freira dissidente feminist Elizabeth Johnson, que defende a ordenação de mulheres. Ao contrário das freiras errantes, Müller explica na sua obra prima “Priesthood and Diaconate” que ser-se homem é intrínsico ao sacramento das ordens sacras, resultando da teologia bíblica dos sexos, enaltecida por Aquino, segundo a qual os sacerdotes representam Cristo, o noivo da Igreja.

Nesse livro, e em várias entrevistas e artigos, o Cardeal defendeu o celibate enquanto imitação de Cristo e entrega completa ao serviço da Igreja e criticou os pedidos de relaxar o voto de castidade como uma “protestantização” do sacerdócio.

Müller escreveu e ensinou profusamente sobre Dietrich Bonhoeffer, o clérigo luterano alemão que foi martirizado pelo seu envolvimento no plano para assassinar Hitler. Como Bonhoeffer, a sua teologia não se limita ao mundo académico, mas está intrínsicamente ligado à luta por um mundo melhor.

Müller e Gutierrez
Mais especificamente, Müller tornou-se um dos mais ferozes defensores dos pobres na Igreja. Para ele um mero estudo da nossa responsabilidade de ajudar os pobres não chega. Visitou quinze vezes a América do Sul durante períodos extensos e, durante estas visitas, não viveu nos palácios episcopais confortáveis, mas entre os pobres, nas favelas e barracas e aldeias dos Andes. Às vezes celebra missa com um poncho Quechua por cima dos paramentos.  

É amigo do teólogo peruano Gustavo Gutierrez desde 1988. Será que o facto de Gutierrez ser um dos mais notórios defensores da teologia da libertação põe em causa a ortodoxia apaixonada de Müller?

Em 1984 Ratzinger publicou uma “Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação”, onde não condena totalmente esta teologia, apenas certas correntes. Gutierrez é ortodoxo, ele nunca abraçou o marxismo, as revoltas violentas ou a imagem de Cristo como um revolucionário político, como fazem alguns defensores extremistas da teologia da libertação, como Leonardo Boff ou Jon Sobrino. O Vaticano nunca condenou Gutierrez, Ratzinger apenas lhe pediu que modificasse alguns aspectos dos seus escritos, o que ele fez obedientemente.

Numa conversa com Peter Seewald, o future Papa Bento XVI afirmou que o dominicano peruano o tinha obedecido e “desenvolvido o seu trabalho no sentido de uma forma aceitável de teologia da libertação que realmente tem futuro”.

No seu livro “Teologia da Libertação: Do Lado dos Pobres”, Müller e Gutierrez condenam o marxismo, descrevendo-o como “totalitário” e baseado numa “antropologia deficiente”. Também desmontam o materialismo de Marx, rejeitando a noção de que a Igreja deve excluír os ricos. O livro cita extensivamente o ensinamento social de João Paulo II, cuja oposição à teologia da libertação marxista é sobejamente conhecida. Quando falam da exploração dos países pobres não se referem apenas a assuntos económicos, os autores são muito críticos da posição americana de promover os contraceptivos no Perú.

É tentador especular sobre se Müller poderá vir a ser eleito Papa algum dia, como aconteceu com o seu compatriota e antecessor Joseph Ratzinger. Tem mais qualificações que a maioria dos cardeais e conhece os problemas da Igreja tanto nos países ricos e secularizados como nas sociedades marcadas por desigualdades sociais. Combateu a descristianização da Alemanha e viveu entre os pobres do Perú. Apesar de ser um teólogo erudito e um curialista qualificado, longe de ser um burocrata Müller também tem umaa rica experiência pastoral na Alemanha e no Perú, é um orador carismático com um toque popular. Para além disso fala impecavelmente alemão, inglês, espanhol e italiano, para além de ser dos cardeais com mais capacidades para lidar com a imprensa.

Claro que apenas o tempo dirá se Gerhard Ludwig Müller chegará a uma posição mais alta na hierarquia da Igreja. Mas a sua excelência académica, a sua solidariedade com os desfavorecidos e o seu dinamismo fazem dele um dos grandes líderes católicos dos nossos dias.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First Things, The European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Agosto de 2014 em 
The Catholic Thing
)

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quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Qual é o objectivo?

Anthony Esolen
Foi W. H. Auden quem disse que todos os críticos deviam mostrar as suas credenciais antes de escrever sobre literatura. Mas as credenciais a que se referia nada tinham a ver com a formação académica ou bibliografia. Auden dizia que eles deviam confessar aos seus leitores qual era a sua visão do paraíso.

Penso que este requisito devia aplicar-se também a todos os críticos sociais e a todos os que propõem alterações fundamentais às leis ou aos costumes. A todos os que se identificam como progressistas, a pergunta evidente é: “Para onde vamos? E porque é que queremos chegar aí?”

Deixemos de lado, por um momento, o facto de não ser possível um paraíso sobre a terra, pois isso implicaria a perfeição das virtudes entre homens decaídos. Nas palavras de Solzhenitsyn, no coração de cada homem trava-se uma batalha entre o bem e o mal.

Deixemos de lado aquela confiança vã de que podemos chegar à terra prometida se seguirmos a estrada mágica da “ciência” ou da “democracia”, ou da “igualdade” ou da “liberdade sexual”, e que tudo estará bem.

Deixemos de lado os meios para chegar a essa terra prometida. A questão que se coloca aos progressistas é: “Que terra é esta que nos prometem? Porque é que é esse o vosso destino? Como é que é? Como é que imaginam o paraíso?”

Para o verdadeiro conservador a questão é menos agressiva e urgente, uma vez que o verdadeiro conservador não acredita no paraíso sobre a terra. “Como é que seria um paraíso? Dadas as fragilidades da natureza humana, que pálido reflexo desse paraíso é que os nossos antepassados, ou nós mesmos, já garantimos? Se já perdemos parte dessa boa realidade, como é que a podemos reaver?”

Esta questão tem implicações sobre o grande debate do nosso tempo, o da chamada “libertação sexual”. Por isso coloquemos aos progressistas esta questão: Qual é a vossa ideia de paraíso? Para onde nos estão a conduzir?

É uma terra em que a maioria das pessoas no auge das suas vidas são casadas? Pelo que os homens e as mulheres dedicam a maior parte do seu tempo a dedicar-se à disciplina edificante e unificadora da vida familiar?

É uma terra em que praticamente nenhum casamento termina em divórcio?

É uma terra em que praticamente não nascem crianças fora do porto seguro do casamento e de votos de estabilidade e perpetuidade?

É uma terra cuja cultura popular celebra aquilo que há de mais nobre na humanidade e não aquilo que é rude, ordinário e egoísta? Uma terra em que os rapazes e as raparigas aprendem que é errado levar uma vida de hedonismo?

É uma terra em que a pornografia é considerada lixo porque conspurca o corpo e a mente?

É uma terra em que os homens têm muita coisa boa para dizer sobre as mulheres e as mulheres muita coisa boa para dizer sobre os homens?

É uma terra em que os casamentos são tão fortes que aqueles que sucumbem às tentações do mau comportamento podem contar com assistência pronta dos seus vizinhos e familiares?


É uma terra cujas igrejas se enchem ao domingo?

É uma terra cujas famílias são tão estáveis e tão presentes na vida local que os políticos, os professores e os homens de negócios precisam de contar com elas? Uma terra em que as famílias supervisionam as escolas e onde os professores são vistos como representantes dos pais, nomeados à sua discrição?

É uma terra cuja vida familiar é dão produtiva e vibrante que em vez de vermos entretenimento massificado a ser bombeado para dentro das casas, existe uma verdadeira cultura popular a florescer dentro de casa?

É uma terra em que se honram as virtudes que fortalecem e protegem as famílias? Uma terra em que a castidade não é desprezada por ser uma forma de puritanismo mas louvada como forma de autodisciplina que respeita a beleza da sexualidade e a santidade do casamento?

É uma terra em que a primeira prioridade da economia é o bem do lar? Uma terra em que as leis e os costumes fortalecem a vida familiar, aumentando as probabilidades de as crianças passarem a maior parte do tempo em casa na companhia de pelo menos um dos seus pais? Uma terra de vizinhança e não de mera proximidade, onde as famílias que vivem nos mesmos bairros se conhecem ao ponto de formar uma espécie de família alargada em que as crianças podem brincar à vontade, sempre debaixo do olhar de alguém de confiança?

É uma terra em que os Governos podem dedicar-se aos seus afazeres, porque quase todos os assuntos verdadeiramente importantes já são tratados pelos lares, os bairros e as paróquias?

É uma terra em que as crianças não são precocemente sexualizadas, tendo assim tempo para aprender a ser rapazes e raparigas antes de entrar na fase da puberdade? Uma terra em que alguém que expressasse a vontade de se insinuar sexualmente nos desejos sexuais de uma criança seria visto como monstruoso? Uma terra em que um pervertido sexual e uma fraude como Alfred Kinsey não seria celebrado?

Nesta terra poderíamos ter uma parada anual para festejar aqueles que celebram os 40 anos de casados, na companhia dos seus filhos e netos? Uma terra em que a palavra “puro” não é usada como gozo e “decadente” não é considerado um elogio?

A todos os que defendem o absurdo biológico de um homem se poder casar com outro homem, perguntamos: “Essa terra que nos propõem é uma onde seriam felizes? Vocês querem que acreditemos que vos podemos conceder esta coisa que desejam sem termos de abdicar de todas as outras coisas que as pessoas comuns sempre quiseram e das quais tantas vezes puderam gozar. Mas essa não é uma mentira? Não é antes verdade que não querem nenhuma dessas outras coisas?

Para onde nos querem levar? Porque é que havíamos de querer ir convosco?


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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