quinta-feira, 16 de abril de 2015

Bento Brinda, Católicos Crescem, Livro Lança-se

Se pensam que isto parece divertido,
esperem pelo lançamento do meu livro!
Antes de mais, um convite pessoal.

Ao longo de um ano estive a escrever um livro, que será lançado agora no dia 27 de Abril. O convite vai em anexo, considerem-se todos desafiados para ir ao lançamento e divulguem por quem acharem que possa estar interessado.

O livro é composto por várias entrevistas a religiosas e aborda tudo o que anda à volta das suas vidas e vocações. Foi um projecto que me deu imenso gosto fazer e que dependeu muito menos do meu trabalho do que do testemunho das entrevistadas. Sai agora, a propósito do Ano da Vida Consagrada.

Espero ver-vos lá!

Quanto a actualidade, hoje fez anos o Papa Bento XVI. Foram 88 e festejou à grande, como se vê pelas fotografias, que não vai querer perder.

Saíram esta quinta-feira os mais recentes dados do anuário pontifício. Ao que parece o número de católicos aumentou 20% desde o ano 2000, mas o número de seminaristas, que tinha vindo a aumentar, decresceu ligeiramente ao longo dos últimos dois anos.

Morreram pelo menos 40 imigrantes ilegais no Mediterrâneo, a tentar chegar à Europa, mas a notícia mais chocante é da detenção de 15 imigrantes muçulmanos que chegaram recentemente a Itália e são acusados de terem lançado borda fora 12 cristãos que estavam no mesmo barco, e que se presume terem afogado.


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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ideologia do género não é a solução, é o problema

Desde que não engravides...
O Papa Francisco criticou a ideologia do género, esta manhã, dizendo que eliminar a diferença entre os sexos não é a solução, é o próprio problema.

Por esta hora, na Sinagoga de Lisboa, está a ser homenageado do padre Joaquim Carreira, que foi considerado “Justo Entre as Nações” pelo memorial do holocausto, Yad Vashem.

Esta tarde representantes das três principais religiões em Portugal juntaram-se para discutir a relação entre a cultura e a religião, concluindo que a cultura pode ser mesmo o antídoto para o fanatismo religioso.

Já perdi a conta às vezes que ouvi dizer que a pílula contraceptiva é não só, e magicamente, isenta de efeitos secundários negativos, como até tem só vantagens. Também já estou habituado a ouvir falar nos métodos naturais como os “métodos da Igreja”… Ora aqui está um artigo do The Catholic Thing para acabar definitivamente com ambos os mitos. Divirtam-se!

Uma Pró-escolha que Defende os Métodos Naturais

Howard Kainz
Na introdução ao seu livro “Sweetening the Pill” [Dourar a Pílula], Holly Grigg-Spall deixa claro que é pró-aborto, em termos políticos, e não tem qualquer objecção aos vários métodos de contraceptivos de barreira – como preservativos, diafragmas, espermicidas etc. Todavia, ela encabeça um movimento contra a pílula contraceptiva e seus derivados (Injecções Depo-Provera, Implantes Nexplanon, anéis vaginais NuvaRing, o DIU hormonal Mirena, etc.) e fá-lo não só com o seu livro, mas com o seu site, entrevistas e um documentário que deve estrear em 2016.

Qual será a sua razão para contrariar assim, de forma tão evidente, a doutrina da Planned Parenthood, da Fundação Bill e Melinda Gates, agências americanas e da ONU e outros que promovem as mais modernas tecnologias de contracepção em todo o mundo?

Ela menciona os riscos para a integridade física, raramente abordados pelos principais meios de comunicação – o facto de a pílula contraceptiva aumentar significativamente o risco de doença cardíaca e de cancro cervical, do peito e do fígado; o facto de os contraceptivos orais serem classificados pela Organização Mundial da Saúde como cancerígenos de classe 1, a par do tabaco e do amianto; que a injecção Depo-Provera vem com um aviso de que é prejudicial para a saúde óssea de adolescentes, e por aí fora.

Mas a sua principal preocupação tem a ver com os efeitos mentais e emocionais da pílula. Cita um estudo de 1998 da Universidade da Carolina do Norte, um estudo de 2001 do Kinsey Insitute, outro da Universidade Monash, de 2005 e um de 2008 da Universidade Lakehead que mostram, todas, um impacto negativo dos contraceptivos hormonais sobre o bem-estar emocional.

As pílulas contraceptivas são usadas como tratamento alternativo para problemas físicos como hemorragias fortes, períodos irregulares, dores menstruais, endometriose e Síndrome do ovário policístico. Mas, pergunta, porque é que mulheres perfeitamente saudáveis hão-de começar a tomar medicamentos, muitas vezes desde a adolescência até à menopausa, que tem inúmeros efeitos secundários – para a tiróide, adrenalina, glicose no sangue, níveis de testosterona, etc?

Basicamente, a pílula funciona recorrendo a hormonas artificiais para colocar mulheres férteis num estado em que acabarão por nunca ovular (apesar das hemorragias de privação que acompanham muitos medicamentos) e que por isso serão sujeitas às alterações fisiológicas comuns às mulheres em menopausa – infertilidade, risco acrescido de AVC e cancro da mama, resistência à insulina, imunossupressão e decréscimo da libido, etc.

Por outras palavras, estamos a assistir a um fenómeno estranho em que vemos as mulheres a serem cuidadosas com o que comem, com o exercício, vida saudável e a optarem frequentemente por um estilo de vida “natural” – mas que de resto escolhem tomar comprimidos que utilizam hormonas para impedir toda a forma de menstruação, contribuindo para a contaminação das águas e desregulando a sua própria fisiologia. 

A motivação invocada para suportar tudo isto é, claro, o medo da gravidez. Holly Grigg-Spall, que usou contraceptivos hormonais desde a adolescência quase até aos 30, descreve da seguinte forma a sua experiência: enxaquecas, hemorragias e náuseas constantes e mudanças frequentes de receitas, mas nunca quis parar porque: “Estava aterrorizada pela ideia de engravidar”.

As pressões nos nossos dias são enormes – pais aterrorizados com a ideia de que as suas filhas adolescentes possam vir a ser “punidas” com uma gravidez; médicos (incluindo pediatras) querendo assegurar a “saúde” das suas pacientes; uma economia moderna que precisa que as mulheres estejam disponíveis para trabalhar sem o fardo de “assuntos femininos”, isto para não falar de homens que querem que as suas mulheres ou namoradas estejam constantemente disponíveis para ter relações sexuais.


Mesmo as mulheres que estão a sentir os efeitos secundários negativos da pílula hesitam em parar por causa dos aspectos “bons”. As adolescentes que usam contraceptivos descobrem não só que as menstruações mais pesadas acabam, mas que a acne começa a desaparecer e o cabelo fica menos oleoso. Continuando pelos anos 20 e 30, como diz Holly Grigg-Spall: “Deixamos de ter períodos chatos, podemos ter a pele mais limpa, somos mais magras, temos peitos maiores e, supostamente, livramo-nos da TPM maçadora”.

Deixar de tomar a pílula também pode resultar em sintomas de ressaca, comparáveis ao abandono de outras drogas – insónias, irritabilidade, etc. E as mulheres que querem engravidar podem descobrir que leva vários meses até começarem a ovular normalmente depois de vários anos a tomar a pílula. Mas para as mulheres que decidem que querem deixar de viver como homens, sem períodos, em menopausa perpétua (e com vários dos sintomas da menopausa), o abandono pode abrir novas vias de oportunidade.

Holly Grigg-Spall cita a sua experiência, que coincide com a de muitas outras:

“Quando tomava a pílula sentia-me estagnada – física, mental e emocionalmente. Ficava presa em sentimentos e pensamentos. Não pensava com clareza. Não progredia. Depois de deixar de tomar a pílula o meu corpo vai passando por alterações durante o mês, experimento ondas e picos, o vai e vem e tudo isto me move. Este movimento é galvanizante... Quando deixei de tomar a pílula foi como se tivessem ligado um interruptor. Rapidamente voltei a ter a capacidade para me relacionar verdadeiramente.”

A sua solução, como alternativa para os contraceptivos hormonais, são os Métodos Naturais de Planeamento Familiar, ao estilo do “Método Creighton” mas sem as motivações católicas “opressivas”. Especificamente, segue os métodos seculares da Fertility Awareness Methods (FAM), como o método “Justisse”. Cita estatísticas de estudos alargados da Universidade de Heidelberg e outros que mostram que as FAM são tão eficientes como a pílula. Proclama a boa nova da sua emancipação da pílula no seu site, num manual de instruções (Coming off the Pill: a Guide) e, como já tinha mencionado, num documentário que está a ser produzido. Também promove uma aplicação para smartphone e tablet – Kindara, uma forma “completa e sofisticada” para seguir os ciclos.

Um defensor católico dos Métodos Naturais gostaria mais de ver uma ênfase no direito natural, e veria os problemas enumerados por Grigg-Spall como manifestações empíricas da violação dessa lei. Mas como São Tomás de Aquino, que sublinhou que se devia apreciar a verdade, independentemente da sua origem, devíamos encarar este movimento, que põe a nu uma das mais potentes armadilhas da revolução sexual, como um passo na direcção certa.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Sábado, 11 de Abril de 2015)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Um ano com o Boko Haram, um dia em Sarajevo

Passa hoje precisamente um ano sobre o terrível rapto de perto de 300 raparigas de uma escola na Nigéria. Neste artigo da Renascença, com vídeo, saiba tudo sobre o acto que colocou definitivamente o Boko Haram no mapa.

Esta triste efeméride serviu também de pretexto para se falar com o Sheikh David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa, o que resultou nesta reportagem, também com vídeo.

Nesta entrevista, que pode ler aqui na íntegra, o imã explica que os muçulmanos portugueses não têm problemas de integração, critica as leituras extremistas do Alcorão, defende os salafitas e fala também da perseguição a que os muçulmanos são sujeitos no mundo.

As forças curdas estão a aproximar-se de Raqqa, a capital de facto do Estado Islâmico na Síria. Isto pode ser sinal de que o Estado Islâmico está em declínio… Veremos. Entretanto na Somália, mais um atentado do al-Shabab fez hoje 10 mortos na capital.

O Papa está a preparar a sua viagem a Sarajevo. À imagem da viagem que fez à Albânia, também de maioria muçulmana, Francisco passará apenas um dia na cidade, mas será um dia em cheio, com nove eventos planeados para apenas 14 horas.

Há muitos anos cruzei-me com um jovem militante da Juventude Socialista que, contra forças muito influentes no seu próprio partido, lutava incansavelmente contra a legalização do aborto em Portugal. Hoje o Claudio Anaia pediu-me para divulgar o seu blog, onde fala desse e de muitos outros assuntos, muitos dos quais ligados também a religião e actualidade social e política, o que faço com muito gosto.

"Integration isn't even an issue for us"

Sheikh David Munir addresses fellow Muslims
in the Central Mosque of Lisbon
This is a short excerpt of my interview with Imam David Munir, of the Muslim Community of Lisbon. In this excerpt he speaks about the integration of Portuguese Muslims in society, and about his relationship with activist Maajid Nawaz. The full interview is in Portuguese and can be found here. The news report, which includes a video, can be found here.

I recently interviewed Maajid Nawaz, a former islamist associated with Hizb ut-Tahrir who, despite still identifying as a Muslim, campaigns against Islamism. He argues that it is a mistake, and counterproductive, to say that groups like the Islamic State, and others, have nothing to do with Islam.
I know Maajid Nawaz, and I have been with him on several occasions.

In one of those events, when I spoke about the Portuguese community, he said: “Here is a good example of integration, and we need you”. He invited me several times to speak at events, to enlighten people. But enlightening people is not the solution to this problem.

The problem with other Muslim communities in the West, specifically in Europe, is one of integration, coexistence and cultural adjustment, and these issues are not on the agenda of the Portuguese community.

We don’t ask our Muslims if they are integrated or not, it’s not even an issue. It’s not on our agenda. So why is it on the agenda of other communities? Because from the beginning, when these communities started to grow, they began forming ghettoes, there are several examples in different European countries. Here we don’t have them, fortunately, because if we did, we’d probably have more or less the same sort of problems.

Regarding Hizb ut-Tahrir, I remember several years ago two of their members came to Portugal. When they arrived they looked me up, this was way before Al-Qaeda, Islamic State, 9/11… They had come to see how many Muslims there were, what they thought.

The term “Caliphate” is very twisted nowadays. When we speak of the Caliphate we are talking about justice, equality, tolerance, getting along with other nations and not the sort of things we see everyday now.

They asked me what I thought and I said sure, if we had a just, honest, sincere and open caliph, why not? But who would be the ideal person? The Islamic countries are in the state they are in, so in theory it might be good, but in practice, I said at the time, it’s a long process. Who would it be? A politican? A cleric? Somebody from the East, from the West?

When they realized that they weren’t going to have much luck recruiting here they left… Of course, I then began to investigate what Hizb ut-Tahrir is about, because at the time I never imagined that the idea they have of a caliphate does not coincide entirely with what Islam is about.

“Há muita coisa que se diz sobre os salafitas que é mentira”

Transcrição integral da entrevista feita ao Sheikh David Munir, imã da Mesquita Central de Lisboa. A reportagem, com vídeo, está aqui.

Faz um ano que foram raptadas centenas e raparigas de uma escola na Nigéria, por um grupo que diz agir em nome do Islão. Enquanto clérigo muçulmano, como é que isto o faz sentir?
Com muita tristeza, com muita mágoa, muita dor.

O facto de qualquer acção de agressividade ser feita, por qualquer pessoa, já é triste. Quando é feita em nome de uma religião que transmite a paz e quer uma boa convivência entre as pessoas e entre os povos, muito mais nos entristece.

Infelizmente já se passou um ano e ainda elas continuam nas mãos deles e parece que a comunidade internacional parou, não se consegue fazer nada, por isso esta outra tristeza, outro lamento, que fala-se muito e faz-se quase nada.

Este ano tem sido particularmente complicado em termos de terrorismo por parte de grupos islamitas. Tivemos o rapto das crianças, a ascensão do Estado Islâmico, os ataques ao Charlie Hebdo, mais recentemente o ataque do al-Shabab à Universidade no Quénia... Tem sido difícil para a comunidade muçulmana gerir o impacto destes actos?
Nós tentamos esclarecer as pessoas sobre o que é o Islão e o que infelizmente algumas pessoas fazem em nome do Islão. Não tem sido fácil, porque as pessoas, infelizmente, algumas já têm, uma ideia fixa, só vêem de uma forma e não têm abertura suficiente para ouvir uma outra voz e perceber as verdades. Mas por outro lado há pessoas que conseguem distinguir e simpatizam connosco, podemos dizer assim. Não tem sido fácil. É um a seguir ao outro... Tentamos esclarecer as pessoas e vamos continuar a fazê-lo, independentemente de as pessoas gostarem ou não, de criticarem ou não, vamos continuar a fazê-lo e a dizer a verdade, porque quem esconde a verdade é mais criminoso que aquele que comete o próprio crime.

O Sheikh David Munir e a direcção da comunidade Islâmica têm sido firmes na condenação do terrorismo e sabemos que outros líderes islâmicos também. Mas mesmo assim, continuamos a ouvir apelos para que altas figuras do mundo islâmico condenem inequivocamente estes actos. Há falta de firmeza por parte destas figuras, ou as suas vozes não nos chegam?
Acho que a segunda hipótese será mais provável, manifestam-se e nós é que não sabemos.

Muitas vezes quando recebemos informação por mail, que houve encontros ou manifestações a condenar estes ataques, nem sequer ouvimos falar disso porque a nossa comunicação social não está muito interessada. Aliás, a nossa comunicação social está mais interessada em divulgar estragos e crimes do que encontros positivos.

Mesmo na nossa sociedade, a seguir aos ataques fizemos um encontro inter-religioso na mesquita, na sinagoga e numa Igreja Católica, e só um dos três ou quatro canais de televisão que temos é que fez a cobertura. As outras todas não se interessaram, paralisaram. É claro que esses encontros têm de ser divulgados também, para as pessoas terem a noção e a consciência de que nem toda a gente concorda com o que é feito em nome da religião. Há muita gente que não concorda e muita gente que condena e muita gente que se manifesta publicamente. Mas há pouca cobertura desses eventos.

Sempre que há um ataque destes as objectivas viram-se para si e para outros líderes islâmicos para pedir uma reacção. Mas pode-se argumentar que esse facto em si revela que as pessoas associam de alguma maneira os actos à comunidade muçulmana em geral. Isso preocupa-o?
Há um dizer do profeta que diz: “Todas as acções dependem das intenções”. Quem faz as perguntas são jornalistas e muitas das vezes fazem, sabendo a minha resposta, mas é mais para esclarecer as pessoas que nos estão a ouvir ou a ver, para enfatizar que o Islão condena, que os muçulmanos portugueses condenam, muitos outros também condenam.

Aqui depende da intenção, de como é colocada a questão. Eu costumo responder aos jornalistas "o que é que acha que é a minha opinião?" E dizem, "sabemos que o senhor condena", e eu digo que é essa a minha resposta.

Porque as pessoas têm de estar esclarecidas daquilo que é o Islão. E muitas das vezes, quando algum acto é feito em nome do Islão a pessoa consegue distinguir. Pode-se dizer que é feito em nome da religião islâmica, mas não tem nada a ver com o Islão e só pode distinguir quem nos conhece, quem não conhece pensará que somos todos iguais e muitas das vezes as pessoas colocam-nos no mesmo saco.

Maajid Nawaz
Recentemente entrevistei o Maajid Nawaz, um ex-islamita, ligado ao Hizb ut-Tahrir, que actualmente, apesar de continuar a identificar-se como muçulmano, faz campanha contra o islamismo. Ele argumenta que é um erro, e contraproducente, dizer-se que movimentos como o Estado Islâmico, e outros, nada têm a ver com o Islão. Qual é a sua opinião?
Eu conheço Maajid Nawaz e já estive com ele em diversos encontros.

Num dos encontros, quando falei da nossa comunidade portuguesa, porque ele vive em Inglaterra, quando falei sobre a nossa comunidade ele disse: "Aqui está um bom exemplo de integração, e nós precisamos de si". E convidou-me várias vezes para participar em eventos, para esclarecer as pessoas. Só que não é esclarecendo as pessoas que se resolve o problema. O problema das outras comunidades islâmicas no ocidente, mais concretamente na Europa, o problema que é colocado de integração, convivência e ajustes de cultura, não faz parte da nossa agenda na comunidade portuguesa.

Nós não perguntamos aos muçulmanos se estão ou não integrados, nem sequer é colocado. Não está na nossa agenda. Então porque é que está na agenda das outras comunidades? Porque desde o início, quando essas comunidades começaram a crescer, foram-se criando guetos, e temos vários casos em vários países da Europa. Aqui não temos, felizmente, porque se tivéssemos, provavelmente iríamos ter mais ou menos os mesmos problemas de base.

Agora, é claro que eles, ao utilizarem o nome do Islão, onde é que vão buscar? Qual é a fonte? O Alcorão fala sobre a guerra, como defesa e não como ataque, e muitas vezes eles retiram o trecho do contexto, porque muitos dos versículos foram falados para aquele momento, naquela altura, era uma resposta para uma questão imediata naquela altura. E nós não podemos esquecer que os muçulmanos tiveram de enfrentar muitas dificuldades para se manterem firmes na sua crença e na sua posição.

Em relação ao Hizb ut-Tahrir, lembro-me que há muitos anos vieram dois elementos ao nosso país. Quando eles vieram, conversaram comigo, muito antes da Al-Qaeda, do Estado Islâmico, dos atentados do 11 Setembro, vieram sondar quantos muçulmanos há, o que achavam, porque o termo "califado" é um termo que hoje é muito deturpado. Quando nós falamos do califado estamos a falar da justiça, estamos a falar de igualdade, tolerância, boa convivência com os outros povos. Não é aquilo que vimos quase todos os dias.

Esses dois membros perguntaram o que é que eu achava e eu disse que sim, se tivéssemos um califa justo, honesto, sincero, aberto, porque não? Quem seria a pessoa ideal? Quem? Os países islâmicos estão como estão, portanto acho que teoricamente é muito bom, mas na prática, disse-lhes na altura, é um trabalho muito longo. Vai ser quem? Um político? Um religioso? Tem de ser uma pessoa do oriente, do ocidente?

Mas depois quando eles perceberam que aqui não havia muitas probabilidades de conseguirem adeptos... Quando ele me disse que era membro do Hizb Ut-Tahrir fez-se um click. Quando vieram dois muçulmanos de Inglaterra, de origem bangladeshi, provavelmente já nascidos em Inglaterra, mas cujos pais tinham vindo do Bangladesh e que estavam com essa preocupação... Claro que comecei a aprofundar e conhecer melhor o Hizb ut-Tahrir mas estava longe de imaginar que a ideia que eles têm do califado, nem tudo tem a ver com o que o Islão transmite.

O Estado Islâmico aponta para antecedentes na tradição da jurisprudência islâmica para justificar muitas das suas atrocidades, como por exemplo lançar homossexuais do topo de prédios, já para não falar de lapidação de adúlteros, cortar as mãos a ladrões e mesmo escravizar jovens raparigas. Estes antecedentes de facto existem... Como é que a comunidade muçulmana lida com isso?
Vamos lá ver uma coisa, à partida as pessoas têm de ter noção que o Alcorão é o código de vida dos muçulmanos. É um código de vida. É uma constituição, uma referência que os muçulmanos têm.

E acontece que a prática do Alcorão é a Sunna, aquilo que o profeta disse ou aquilo que o profeta fez. O que vem a seguir, a jurisprudência, a analogia, vem quando as pessoas tentam interpretar um assunto que não está mencionado directamente nos hadites nem no Alcorão. Existem quatro grandes escolas de jurisprudência islâmica, porque muitas das vezes a resposta que é dada não é exactamente a mesma que se fosse dada há uns anos atrás, e isto aconteceu mesmo fora do contexto religioso em todas as sociedades.

Por exemplo, antes do 25 de Abril não havia abertura para as outras confissões, as pessoas estavam mais mentalizadas a haver só uma confissão, mesmo sabendo da existência das outras confissões. Mas como não havia abertura, como falamos por exemplo da presença na inauguração de uma coisa oficial, então a presença do Patriarca, ou a presença de um religioso católico era importante, hoje já não.

O que acontece é que em algumas narrações, e aí temos de analisar essas narrações, antes de aplicar qualquer pena há sempre um tempo que é dado à pessoa, para conversar com a pessoa e a tolerância e o perdão prevalecem sempre.

Agora, quando falamos daquelas pessoas que fazem só uma leitura e que fazem uma leitura mais à letra, do que é dito, e se é um grupo de pessoas com esta forma de agir, então temos uma outra interpretação daquilo que é dado. Mas nunca podemos esquecer que quando a pessoa tem uma prática que o Alcorão condena e que o Islão condena, deixa-se muito ao critério da pessoa. Conversa-se com a pessoa, explica-se à pessoa, faz-se ver a pessoa e deixa-se muito ao seu critério, não se pode obrigar a implementar seja o que for. Mas como disse, se vivemos num ambiente onde toda a gente condena, ninguém sabe como responder, ninguém está preparado para isso, só um grupo é que está preparado para isso, então temos muitos actos que muitas vezes até o próprio Islão condena.

Numa das suas respostas disse que há coisas que estão no Alcorão que são para aquele tempo. Sendo o Alcorão, segundo acreditam os muçulmanos, a palavra de Deus ditada ao profeta, portanto não é uma interpretação de uma mensagem, é a palavra textual de Deus, como é que se distingue o que era para aquela época e o que é para a eternidade?
Vendo o contexto daquilo que foi revelado.

Por exemplo: “Combater aqueles que vos combaterem, e nesse combate não pode exagerar” e “Defende-se, mas não pode atacar”. Estamos a falar em termos de combate de guerra, não como atacar mas sim como defesa.

Há alguns versículos que foram revelados naquele momento, para aquele tempo e há passagens que falam daquilo que se passou. Estamos a falar do nascimento de Jesus, de Maria e dos outros profetas e mensageiros, estão lá, são palavras eternas de Deus mas estão a ensinar aquilo que se passou concretamente com Abraão, com Moisés, quando Deus disse para ir ter com o Faraó e ele fez os milagres, estamos a falar do nascimento de Jesus... Faz parte da crença islâmica acreditar em todos os profetas e mensageiros e na revelação que eles fizeram. São palavras de Deus, são palavras verdadeiras, mas no contexto social e económico...

Por exemplo, lembrei-me agora, quando dizemos que uma das formas que o Islão tem de retribuir o que fez e não devia ter feito, é libertar um escravo. Mas hoje não há escravatura. Não há, como havia na altura. Se não tem escravos, então dá de comer aos mais necessitados. Ok, mas eu não tenho possibilidades de dar de comer. Então jejua. Mas eu não posso jejuar porque sou doente. Então não faz nada. Percebe? Tem fases.
Eu não posso libertar um escravo, porque já não há escravos. Cada caso é um caso.

Quando falamos em termos do aspecto social, a caridade é obrigatória, um dos pilares do Islão é a caridade. A quem é que é destinada a caridade? O Alcorão dá uma lista. Mas se houver alguém fora da lista que seja merecedor? Também recebe. No entanto, se a pessoa tem alguma dificuldade em dar a caridade na totalidade, dá aquilo que lhe é possível, já não é considerado obrigatório, é caridade facultativa.

Quando diz, então, que há certas coisas que dependem do contexto, obriga a uma leitura subjectiva que cabe, imagino eu, ao líder espiritual da comunidade. No caso da comunidade de Lisboa cabe-lhe a si, noutras, aos respectivos imãs. Mas não existe então uma leitura universal...
Quando falamos da nossa comunidade, cada mesquita tem um imã e nós nos reunimos quando há um assunto a debater, e fora disso também, para manter a nossa ligação, digamos assim, constantemente e permanentemente.

Basicamente, há dois tipos de versículos do Alcorão. Há uns que são considerados mandamentos. Os cinco pilares, as cinco orações; o jejum é no mês de Ramadão, quer calhe no verão ou no inverno, é o nono mês, tem de se jejuar naquele mês. A peregrinação é a Meca, e tem de ser no 12º mês. Portanto aqui falamos dos mandamentos.

Depois temos outros versículos do Alcorão que têm mais de uma leitura. Muitas das vezes a época, o tempo é que interpreta esse versículo.

Há versículos que dão referências sobre a ciência. Por exemplo, “A origem da vida é a água”. Isto dito há 1436 anos, no deserto, por uma pessoa que não sabia ler nem escrever...

O Alcorão diz que tudo o que a terra produz tem macho e fêmea, até os frutos. Hoje é possível saber se uma fruta que estamos a comer é macho ou fêmea, desde que levemos para um laboratório. Agora, pergunto, como é que é possível para uma pessoa que não sabia ler nem escrever, que vivia no deserto, na Arábia, há 1436 anos, como é que ele soube? Quem é que revelou? Hoje acredita-se com tanta facilidade que a pessoa que não acredita acaba por ser considerado ignorante. Mas na altura aquela pessoa que acreditasse era ignorante, porque não havia meios de interpretar.

Agora, como disse, algumas pessoas conseguem manipular uma boa parte da comunidade muçulmana ignorante, que conhece as coisas básicas, mas não conhece muito a teologia, porque aquelas pessoas que conhecem a teologia, sinceramente, não são facilmente manipuladas. Quem não conhece teologia, quem está mais preocupado com as virtudes, acaba por cometer muitas asneiras. Sabe o que diz o Alcorão? “Aquele que sabe e aquele que não sabe são iguais? Claro que não.”

Sabemos que grande parte dos grupos jihadistas são de inspiração salafita e que esta é a corrente propagada a partir da Arábia Saudita. Como vê o papel e a influência da Arábia Saudita no mundo islâmico?
Primeiro, muita coisa dita sobre o salafismo não é verdade. Muita coisa é dita, muita coisa é inventada. Na realidade, na prática, estando com eles, convivendo com eles, não tem nada a ver com muitas das coisas que nós ouvimos falar. Há um dizer do profeta: “As várias opiniões, na minha nação, entre as minhas pessoas, é a misericórdia”. Cada um ter a sua opinião, desde que seja uma opinião válida, desde que seja para o bem-estar da comunidade, é válida.

Eles têm feito muito trabalho positivo para que as pessoas possam, no mínimo, praticar o Islão de acordo com as suas possibilidades. O facto de construir mesquitas, tudo bem, é uma virtude enorme, mas na manutenção da mesquita, como é que ela deve ser dirigida, como é que tem de ser visitada, como é que tem de se explicar o Islão, há muita coisa que tem sido feita que infelizmente não é divulgado, nem sequer é dito.

Eles tentam ajudar as pessoas que precisam mesmo, independentemente das crenças ou não - estamos a falar dos sauditas - por exemplo, nas duas mesquitas sagradas de Meca e Medina, tirando o mês do Ramadão, às segundas e quintas há a tradição de a pessoa jejuar, um jejum facultativo. Então empresários sauditas, estamos a falar daqueles homens milionários, humildemente distribuem tâmaras e comida para as pessoas quebrarem o jejum na mesquita. E concorrem uns com os outros para dar de comer a milhares de pessoas que não conhecem e que estão lá simplesmente para quebrar o jejum.

Jovens salafitas
Agora, é claro que, mesmo nas outras escolas, há sempre aqueles teólogos que dão uma interpretação não diria necessariamente errada, mas um pouco mais exagerada, mais conservadora, da prática do Islão. É a tradição do profeta comera com as mãos. Lava as mãos e come com as mãos. Mas uma pessoa comer com talheres não é cometer um pecado. Era tradição do profeta sentar-se no chão para comer, mas uma pessoa utilizar a mesa não é pecado. Era tradição do profeta viajar de cavalo, mas hoje, nas grandes cidades, mesmo naquelas [salafitas], não se viaja. Temos de saber adaptar-nos.

Claro que quem conhece a teologia está apto para conversar, dar a sua opinião e discutir. Houve um tempo em que no mundo islâmico os manuais não eram constantemente revistos, hoje já são mais revistos, há mais abertura, mais aproximação, mais respeito pelas outras culturas e pelos outros povos.

A comunidade Islâmica de Lisboa já aceitou ajuda financeira da Arábia Saudita para ajudar a construir esta mesquita?
Recebemos de uns empresários, uma coisa particular.

Com essa ajuda nunca sentiram pressão sobre os vossos ensinamentos?
Nunca. A Mesquita Central de Lisboa e as pessoas sabem, os nossos irmãos embaixadores de todos os países sabem, é uma mesquita aberta para todos, não há influência directa nem indirecta de qualquer ideologia ou de qualquer escola de interpretação do Islão ou de qualquer tipo que não seja islâmico. A mesquita é de todos.

Esta mesquita é aberta, é possível visitar. Mas sabemos que há outras mesquitas, não digo clandestinas, porque não são ilegais, mas digamos, informais, que funcionam em caves ou em apartamentos emprestados. Não é possível que haja, entre essas comunidades, uma pessoa ou um grupo com tendência mais radical ou mal-intencionada, que propositadamente evitariam esta mesquita porque já sabem que aqui a sua mensagem não seria bem aceite... Tem ideia de casos desses?
Primeiro, como disse e bem, não temos mesquitas clandestinas. O que acontece é que quando há um grupo de muçulmanos que reside numa localidade é normal que se preocupem em ter um espaço para fazer as cinco orações em congregação, em conjunto. Depois pode haver um ou outro que diga que tem um apartamento do qual não está a usufruir e cede por um espaço de tempo determinado. Depois há situações em que as pessoas juntam-se para contribuir para alugar um espaço, fazer umas pequenas obras, mas todas elas estão abertas a qualquer pessoa que queira assistir.

Agora, essas pessoas também se preocupam em escolher um líder. Quem é que vai presidir às orações e dar alguma orientação? Há mesquitas que dizem que não precisam, porque haverá sempre uma pessoa idónea sempre para presidir à oração, porque não há palestras, não há nada, portanto para as grandes responsabilidades ou vai à Mesquita Central de Lisboa, ou vai a outras, mas no entanto poderá haver alguém com essa má intenção de tentar transmitir essa mensagem mais radical, uma mensagem diferente do que as pessoas estão habituadas, mas até agora creio, e quero acreditar, que essas pessoas não têm adeptos ou acabam por não serem ouvidas. Até agora não aconteceu nenhum caso desses, mas não quer dizer que não venha a acontecer ou que não esteja a acontecer, de acordo com o conhecimento que temos.

Esse encontro que costumamos ter, entre os diversos imãs das várias mesquitas, quando há algum encontro convidamos os representantes das diversas mesquitas, por isso se houvesse algo, com certeza que chegaria aos ouvidos da comunidade, como se costuma dizer as fofocas chegam sempre mais depressa. E se isso acontecesse chamaríamos a pessoa e tentávamos explicar isso.

Houve situações, quando surgiu o filme sobre o profeta, e esse filme também foi condenado na nossa comunicação social, um grupo quis fazer uma manifestação pacífica, para tentar dizer que a mensagem do profeta foi misericórdia, foi tolerância, e a direcção, presidida pelo Dr. Vakil, chegou à conclusão que não se ia fazer nada.

Ao fazermos uma manifestação, mesmo que seja pacífica, estamos a chamar a atenção, e aquelas pessoas que não viram vão ver. Por isso resolveu-se o problema.

Mas nós ficamos magoados quando as pessoas fazem algo sobre o profeta. Decidiu-se, então, numa sexta-feira próxima ia-se falar sobre o profeta. Todas as mesquitas falaram sobre a vida do profeta, como é que ele foi. Foi uma forma de nós reagirmos pacificamente ao que nos magoava.

É interessante e nós muçulmanos apercebemo-nos disso, e não muçulmanos também, quem está muito ligado aos assuntos das religiões, quando alguém diz que Deus não existe não há manifestações; Quando alguém diz que Deus não é um, são muitos, não há manifestações; Quando alguém diz que tudo é Deus, não há manifestações; Mas quando alguém diz, escreve ou faz algo sobre o profeta Mohammed, já há manifestações.

Eu costumo dizer, nessas manifestações devemos reagir como o profeta reagiu. Foi magoado, insultaram-no, incomodaram-no, chamaram-lhe nomes. Como é que reagiu? Perdoou, ignorou e foi tolerante. Mesmo numa posição em que ele podia ser vingativo, ele não foi. Este é o exemplo que ainda falta a alguns muçulmanos.

O presidente do Egipto disse recentemente que é preciso fazer-se uma reforma do Islão. O que lhe parece esta frase, e isso seria sequer possível?
Bem, dizer que é preciso fazer uma reforma do Islão é algo muito vasto e muito complexo. Reformas de quê?

Mais importante é educar os muçulmanos, criar condições, seja no Egipto, como mencionou, ou em qualquer parte. Concretamente em países islâmicos, porque estamos a falar do Islão, independentemente, de ser árabe ou não árabe, porque nem todos os países islâmicos são árabes, enfatizar mais a educação, muito mais. O acesso à educação. Para eles e para elas.

E depois, tentar equilibrar o aspecto social. É interessante que um dos pilares básicos do Alcorão é a caridade. Se cada muçulmano contribuísse com a caridade obrigatória pode crer que muita pobreza iria acabar.

Muçulmanos de etnia rohingya,
alvos de perseguição na Birmânia
Tem-se falado muito da perseguição aos cristãos por parte de grupos islâmicos fundamentalistas em vários países. Contudo, os mesmos muçulmanos falam em casos de muçulmanos perseguidos e apontam o exemplo dos rohingya, na Birmânia, dos muçulmanos da Tailândia e na República Centro-Africana, por exemplo, já para não falar da questão palestiniana. É verdade que a comunidade islâmica global se sente ameaçada, injustiçada? Se sim, o facto de se falar tanto da perseguição aos cristãos sem se falar desses casos, pode piorar esse ressentimento?
Há muçulmanos que mencionam e que dão muito ênfase a essa situação e os muçulmanos, infelizmente, estão a ser perseguidos. Infelizmente os cristãos também estão a ser perseguidos, mas não podemos esquecer esta face da moeda, que há muçulmanos em alguns países que estão a ser perseguidos, estão a ser massacrados, maltratados, muçulmanas que estão a ser violadas.

Mas isto não quer dizer que, pelo facto de isso estar a acontecer, nós vamos massacrar, ou torturar outros que são inocentes, que não têm nada a ver.

As pessoas não deviam misturar as coisas, mas a verdade é essa, se de um lado, infelizmente, os cristãos estão a ser perseguidos por muçulmanos, e não deviam, porque o Islão protege as religiões minoritárias, por outro lado não podemos esquecer que há muçulmanos que estão a ser maltratados, a serem perseguidos por serem muçulmanos ou por pertencerem a outra etnia ou por pertencerem a outro povo. Muitas vezes a questão não é sequer religiosa, é étnica, cultural ou nacional. Mesmo que não fossem muçulmanos seriam perseguidos.

Quando falamos na Índia, por exemplo, é um país em que se vive bem, em termos de liberdade religiosa. Mas não em toda a Índia. Há aldeias, para não dizer cidades, em que hindus radicais dificultam a vida aos muçulmanos.

As suas origens vêm da Índia, via Moçambique. Tem casos próximos de si de perseguição?
Não.

O pai era do Iémen, a minha mãe era de Moçambique, mas de origem indiana. As nossas raízes, concretamente dos muçulmanos que estão aqui, ainda são Moçambique e os que vieram para Portugal e nasceram cá, as suas raízes acabam por ser portuguesas. Culturalmente o muçulmano português é português.

Amin Maalouf escreveu um livro, “As identidades assassinas”, aqueles que emigraram, que vivem anos e anos noutros países. Ele dá o exemplo dos franceses. Diz que os franceses não o consideram francês, mas os libaneses não o consideram libanês, por isso ele tem uma identidade assassina.

Isto é interessante num aspecto social, qual é a nossa identidade? Acho que o muçulmano preocupa-se mais com a sua identidade religiosa, sem transgredir a identidade cultural ou de boa cidadania. Por isso é que volto a dizer o que já tinha dito à Renascença, qualquer muçulmano que viva no ocidente e que não se sinta bem, tem solução, vai para onde se sentir melhor, onde se possa adaptar.

Depois, a nova geração é muito globalizada, o acesso à net, ao conhecimento... Hoje não podemos esconder nada, é tudo possível, tudo transparente. Isto tudo afecta, tudo o que se passa num local, de imediato todo o mundo fica a saber e depois é através das redes sociais que, infelizmente, alguns muçulmanos com pouco conhecimento, e um pouco perturbados... Porque esse aspecto também é importante, muitos deles estão perturbados e com pouco conhecimento e com alguma perturbação, facilmente caem nessas teias. Depois tornam-se radicais, tornam-se terroristas, matam pessoas inocentes.

Mas se for um não-muçulmano que mate 150 pessoas inocentes, como aconteceu recentemente [no desastre do avião da Germanwings], ele nunca é considerado terrorista.

Sunitas e xiitas no mundo islâmico
Olhando para o que se passa no Médio Oriente, concorda que a raiz do problema está num conflito entre sunitas e xiitas?
Não.

Não acho que seja um problema entre sunitas e xiitas. O problema entre sunitas e xiitas pode-se resolver, se eles quiserem e se se entenderem. O problema do Médio Oriente, mais concretamente, é o problema entre o Estado de Israel e a Palestina. Se Israel respeitar a Palestina e se a Palestina respeitar Israel, mas respeitar mesmo, então 50% dos problemas serão resolvidos.

Como é que o problema entre Israel e Palestina está a afectar o Iémen, onde vemos uma intervenção de vários países sunitas e o Irão a apoiar os houthis...
Isso é um reflexo daquilo que se vai passando no Médio Oriente. Nem temos de ir ao Iémen, vamos ao Iraque...

Precisamente... Mas como é que esses problemas dependem de Israel?
Estamos a falar do Médio Oriente, geral. Se houver um entendimento [entre Israel e Palestina] então é uma bola de neve. Atenção que não sou político nem sequer quero dar palpites.

Há um problema grave entre sunitas e xiitas, não diria desde o tempo do profeta, mas 50 anos depois, esse problema começa por questões políticas e não religiosas, mas acontece que quando tentamos falar dos sunitas e dos xiitas, nunca imaginaríamos que a maioria da população do Iraque, no tempo do Saddam estava tudo muito calmo... Ninguém se apercebia disso. Agora, os que estavam no poder querem o poder, os que estão não querem deixar o poder. Mas o que acontece é que as coisas estão a alastrar-se um pouco, infelizmente.

Agora, eu não acho que seja prioridade, este problema entre sunitas e xiitas. Pode estar na agenda, mas não como problema prioritário, porque há países onde há um bom entendimento entre os dois grupos, portanto isto não seja prioridade, mas sim, pode estar na agenda para que haja uma boa convivência ou respeito.

Infelizmente as pessoas quando se começam a tornar radicais ou agressivas, deixam de respeitar o outro. Quando é que a pessoa se torna radical? Quando deixa de respeitar o outro como ele é, na sua crença, na sua pessoa, na sua cultura e na sua identidade.

Desde o 11 de Setembro a violência jihadista tem sido uma constante. Parece que de ano para ano a situação piora. O Século XXI vai ser assim?
Esperemos que não. Esperemos que seja tudo passageiro e que acabe de uma forma progressiva, porque isto não ajuda ninguém, nem Boko Harams, nem um Estado que diz ser um Estado mas não tem nada a ver com o Islão.

O facto de uma pessoa usar uma "jalaba", ter uma barba comprida e ter um turbante, não significa que seja muçulmano, não significa que tudo o que faz seja islâmico. Por outro lado, como a população maioritária do nosso país é cristã, católica, se um cristão católica, com a Bíblia na mão, cometer um suicídio colectivo, não é cristianismo. Isto aconteceu no Texas. Não digo que fossem católicos, mas eram de uma seita cristã, que cometeu um suicídio colectivo com pessoas inocentes. Isto não é cristianismo, são pessoas que interpretam...

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Patriarca nomeado, Papa contestado

O bispo Juan Barros, do Chile. Nomeação polémica
O Papa nomeou esta manhã D. Manuel Clemente para a Congregação do Clero, em Roma. O Patriarca passa a ter também assento no Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais.

Isto no dia em que D. Manuel Clemente discursou, no fim de uma reunião da CEP, manifestando esperanças de que a lei do aborto seja alterada e falando da perseguição aos cristãos.

A nomeação de um bispo chileno, acusado de ter protegido um sacerdote abusador, está a causar alguma polémica. Agora foi a comissão de protecção de menores, nomeado pelo Papa, que esteve em Roma para manifestar reservas quando à decisão.

Esta não é a única polémica envolvendo o Papa. Ontem Francisco presidiu a uma celebração evocativa do massacre de arménios pelos turcos, há 100 anos. O problema é que Francisco usou a palavra genocídio, e os turcos foram aos arames

Foi divulgada a bula que traça os objectivos para o jubileu da misericórdia.

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