quinta-feira, 21 de maio de 2015

Skorka, Goucha, Vocações

A cidade de Palmyra, agora ocupada pelo Estado Islâmico
Mais um dia, mais uma entrevista sobre o meu último livro “Que fazes aí fechada”. Desta vez fui à TVI, ao programa do Goucha “Você na TV” para uma conversa de 10 minutos que correu muito bem e que podem ver através deste link.

Outra entrevista que não vão querer perder é do rabino Abraham Skorka à Renascença. O amigo do Papa fala da perseguição religiosa e outros temas da actualidade.

Entretanto há uma corrida de potências que querem ajudar o Iraque a combater o Estado Islâmico. Depois do Irão, agora é a Rússia. Entretanto Obama insiste que a guerra, apesar dos recentes avanços dos jihadistas, está a ser ganha.

Não deixem ainda de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a eterna polémica dos estudos sobre os benefícios/malefícios dos relações homossexuais, casamento e adopção etc. Há muitas ideias espalhadas sobre este assunto que não têm bases sólidas.

"Que fazes aí fechada" no Você na TV

Hoje foi dia de ir ao Você na TV falar sobre o meu livro "Que fazes aí fechada".

O Manuel Luís Goucha, em particular, mostrou ter lido o livro e estava interessado. Penso que a entrevista correu bem, mas isso podem ver por vocês, clicando aqui.

Para já, o próximo evento marcado é uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 10 de Junho.


quarta-feira, 20 de maio de 2015

O padre que salva refugiados e a freira que beijou o Elvis

O beijo milionário de Dolores Hart e Elvis Presley
Conheçam Mussie Zerai. Ele não é apenas mais um homem que veio de África trabalhar na Europa. É um padre católico da Eritreia e é responsável por ter salvo milhares de pessoas de se afogarem no Mediterrâneo. Um herói.


Ontem foi anunciado o prémio Árvore da Vida. A contemplada deste ano é a artista plástica Lourdes Castro.

Conheça ainda a freira que ajudou a salvar um mosteiro beijando uma estrela de rock. (Leia mesmo, nem tudo é o que parece…)

No passado fim-de-semana fui entrevistado pela Renascença (é só cunhas!) sobre mim, o meu trabalho, os meus estudos e, claro, o meu livro “Que fazes aí fechada”. Se quiserem ouvir a entrevista completa, está aqui.

Amanhã, para quem ainda não se fartou de mim, estejam atentos ao “Você na TV” (conhecido como o programa do Goucha), onde estarei a falar do livro também, devendo entrar por volta das 11h.

Hoje é dia de artigo do The Catholic Thing. Perante a cedência dos bispos alemães e suíços à agenda do politicamente correcto, o psicólogo Rick Fitzgibbons vem trazer alguns factos, baseados em estudos e não em propaganda, sobre a homossexualidade.

Menos Propaganda e Mais Ciência para os Bispos

Rick Fitzgibbons
Declarações feitas recentemente pelas conferências episcopais da Alemanha e da Suíça, em antecipação do Sínodo da Família, mostram-nos a ceder na questão das uniões homossexuais. Os alemães emitiram um comunicado para o sínodo em falam de alegadas descobertas: “nas ciências humanas (medicina e psicologia), nomeadamente que a orientação sexual é uma disposição que não é escolhida pelo indivíduo e que não é alterável. Por isso, a referência no questionário [para o sínodo] a ‘tendências homossexuais’ é confusa e consideramos que é discriminatória”.

Nas palavras do altamente respeitado vaticanista Sandro Magister: “Os bispos alemães não só aprovam que se dê absolvição e comunhão aos divorciados e recasados, como também manifestam a esperança de que os segundos casamentos civis possam ser abençoados na igreja, que a comunhão eucarística possa ser dada a esposos que não são católicos e que seja reconhecida a bondade dos relacionamentos e das uniões homossexuais.”

Os bispos explicam ainda que estas uniões deixarão de ser, salvo em casos extremos, incompatíveis com um emprego ao serviço da Igreja na Alemanha. Não é difícil detectar aqui as pressões exercidas sobre a Igreja em todo o lado, de forma mais ou menos subtil, para alinhar com a nova ética sexual.

Contudo, as afirmações dos bispos alemães não reflectem fielmente os dados médicos e psicológicos sobre as origens da atracção homossexual. Os bispos católicos não só deviam estar a resistir à pressão de ceder a estas tendências sociais, como deviam estar a promover os benefícios do tratamento e a participação na Courage, a única organização católica de acompanhamento de homossexuais que é reconhecida pelo Vaticano. Uma declaração de 2006 da Conferência Episcopal do Estados Unidos recomenda o tratamento e a orientação espiritual para quem tem atracção por pessoas do mesmo sexo. Talvez seja tempo de nos actualizarmos, a começar com os dados científicos sobre os graves riscos médicos e psiquiátricos para aqueles que vivem em uniões homossexuais e os graves perigos para o desenvolvimento psicológico dos jovens que são deliberadamente privados de um pai ou de uma mãe por terem sido criados num lar homossexual.

Um dos maiores estudos de casais homossexuais revelou que apenas sete dos 156 casais analisados vivia numa relação completamente exclusiva, e que a maioria das relações durava menos de cinco anos. Nos casais cujas relações duravam mais tempo havia alguma tolerância por actividade sexual exterior. Os autores concluíram que “o único factor mais importante que mantém os casais unidos para além de dez anos é a ausência de um sentido de posse” – isto é, uma racionalização que minimiza a dor emocional de ser vitimizado por repetidos casos de infidelidade.

Um estudo dinamarquês de 2011 revelou que o risco de suicídio, ajustado à idade, para homens em uniões de facto homossexuais era quase oito vezes maior que o risco de suicídio para homens num casamento heterossexual.

Foram feitas duas avaliações sistemáticas de 47 estudos sobre a violência nas relações íntimas (VRI) entre homens em relações homossexuais. Um concluiu: “Os dados emergentes avaliados revelam que a VRI – psicológica, física e sexual – ocorre a ritmos alarmantes em relações homossexuais masculinas”.

Dois estudos de 2015 revelaram que 512 crianças criadas por pais do mesmo sexo tinham uma prevalência de problemas emocionais duas vezes superior à norma. Outro investigador concluiu que, em comparação com lares tradicionais com pais casados, as crianças criadas por casais homossexuais tinham 35% menos probabilidade de progredir normalmente na escola.

Um estudo de 2013 do Canadá analisou dados de uma amostra em grande escala e concluiu que os filhos de casais gays e lésbicas têm apenas cerca de 65% de probabilidade de terminarem o secundário quando comparados com os filhos de casais heterossexuais casados. As raparigas sofrem mais que os rapazes. Filhas de “mães” lésbicas revelaram ter taxas de sucesso escolar dramaticamente inferiores.

Símbolo do apostolado Courage
Contrariamente à propaganda disseminada, há várias décadas que existem relatórios, tanto do ponto de vista dos terapeutas como dos clientes, de mudanças profissionalmente assistidas de atracção indesejada pelo mesmo sexo. Os profissionais usam uma variedade de protocolos de tratamento que abrangem várias escolas de psicoterapia. Ao contrário do que se pensa, não existem provas científicas de que estas terapias de mudança profissionalmente assistida de atracção indesejada pelo mesmo sexo sejam prejudiciais.

Alguns clientes que recebem estes cuidados profissionais por atracção indesejada pelo mesmo sexo admitem ter mudado “completamente”, outros revelam “nenhuma” mudança. Outros ainda dizem ter conseguido alterações sustentadas, satisfatórias e significativas tanto na direcção como na intensidade das suas atracções, fantasias e excitação sexual, bem como no seu comportamento e identidade de orientação sexual.

A Congregação para a Doutrina da Fé dirigiu uma carta em 1986 aos bispos católicos sobre o Cuidado Pastoral de Pessoas Homossexuais em que pede aos bispos de todo o munto para “apoiar com todos os meios à sua disposição, o desenvolvimento de formas especializadas de atendimento pastoral às pessoas homossexuais”. Tais cuidados podem “incluir a colaboração das ciências psicológicas, sociológicas e médicas, mantendo-se sempre na plena fidelidade à doutrina da Igreja.” [Ênfase do autor]

Uma investigação, no âmbito de um doutoramento, sobre os membros da Courage comprova a eficácia do programa em lidar com aqueles que têm atracção por pessoas do mesmo sexo. (Os indivíduos com atracção pelo mesmo sexo têm mais perturbações mentais do que a população geral.) Os entrevistados que viviam em castidade revelavam melhorias na sua saúde mental geral. Existe uma correlação entre uma espiritualidade autêntica e melhorias na saúde mental. Também existem correlações positivas entre a castidade, a participação religiosa e índices autorelatados de felicidade.

A minha experiência profissional de quase 40 anos a trabalhar com padres mostra que os principais obstáculos à aceitação e à pregação da verdade da Igreja sobre a sexualidade humana e a homossexualidade radica numa incapacidade de ensinar a verdade da Igreja sobre contracepção, proclamada na Humanae Vitae. Quando se ignora a ordem criada por Deus isso reflecte-se inevitavelmente noutras áreas.

Os padres sinodais e as conferências episcopais têm de ser actualizados em relação aos dados das ciências médicas e psicológicas relacionados com a homossexualidade. A Associação de Médicos Católicos dos Estados Unidos e o apostolado da Courage fornecem uma formação muito importante, juntamente com outras associações médicas católicas internacionais. 

Um recurso importante que já foi traduzido para várias línguas é a publicação da Associação de Médicos Católicos “Homossexualidade e Esperança”. Mas há muito mais – se ao menos os nossos líderes católicos quisessem realmente saber a verdade sobre estes assuntos.


Rick Fitzgibbons é um dos autores da segunda edição de “Homossexualidade e Esperança”, da Associação de Médicos Católicos dos EUA.

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 17 de Maio de 2015 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

"Que Fazes Aí Fechada" no "Porta Aberta"

No domingo passado estive no programa Porta Aberta do Óscar Daniel, na Renascença. 
Foi uma conversa longa sobre o meu percurso, o meu trabalho enquanto jornalista, os meus estudos académicos sobre o perdão, a minha vida familiar e, claro, o meu livro "Que fazes aí fechada".
Para ouvirem a entrevista na íntegra basta clicarem aqui e escolherem o áudio, debaixo da imagem principal.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Incompatibilidade entre ciência e religião? Não...

Jesuítas a incompatibilizarem-se
O Papa canonizou duas freiras palestinianas em Roma, este fim-de-semana, diante de Mahmoud Abbas e mais de dois mil peregrinos cristãos que vieram da Terra Santa.

D. Manuel Clemente teve um fim-de-semana muito cheio. No sábado foi dia de bênção dos finalistas e no domingo a festa diocesana da Família. Aos primeiros pediu que nunca se esqueçam da sua terra, no segundo evento abençoou mais de 100 casais que celebravam bodas de casamento e falou da fasquia “muito alta” que Jesus impôs aos casados.

D. Pio Alves compara os sites desactualizados às Igrejas fechadas, a propósito de mais um dia das Comunicações Sociais.

Conhece pessoas que acham que a ciência e a fé são incompatíveis? Envie-lhes esta entrevista com Francisco Malta Romeiras, que explica bem o absurdo da tese. A transcrição integral da entrevista está aqui.

Há um novo livro, que deve ser muito interessante, sobre os santuários portugueses.

E amanhã realiza-se na Universidade Católica uma interessante iniciativa. A Conferência: Estado Islâmico, Uma Ameaça Actual? Conta com a presença de Hugo Franco, Jaime Nogueira Pinto e o Cónego João Seabra e deve valer bem a pena. É às 18h30 no Auditório A2 do edifício de Direito.

Cientistas não ligam à “incompatibilidade” entre ciência e religião

Jesuítas com instrumentos científicos
Transcrição integral da entrevista a Francisco Malta Romeiras, a propósito do seu livro “Ciência, Prestígio e Devoção: Os Jesuítas e a Ciência em Portugal (séculos XIX e XX)”. A reportagem pode ser lida aqui.


De que trata o livro?
O meu livro trata das investigações científicas que os jesuítas fizeram no século XIX e no século XX em Portugal.

Trata dos colégios que fundaram, o colégio de Campolide e o Colégio de São Fiel e, numa segunda parte, da revista Brotéria.

Ao longo da história temos visto os jesuítas a serem perseguidos de forma particular. Há alturas em que todas as ordens religiosas são expulsas, mas parece haver pelos jesuítas um ódio especial... Porquê?
Os jesuítas foram expulsos de Portugal três vezes. A primeira foi pelo Marquês de Pombal em 1759 e, no século XIX, foram expulsos antes de todas as outras ordens religiosas. O que acontece é que a Companhia de Jesus era uma instituição muito poderosa em Portugal e na Europa. Por isso criou uma animosidade maior, também em Portugal e na Europa. Os jesuítas dominavam a rede de ensino em Portugal, na Europa e na Ásia. Eles são muito contestados porque são acusados de serem contra a ciência e contra a educação, o que mais tarde se veio a provar não ser verdade.

Mas por serem uma ordem tão poderosa e com tantos interesses, acontece que depois chocava com os interesses do Marquês de Pombal, em Portugal, daí terem sido a primeira ordem a ser expulsa.

Repare-se que só em 1834, quase cem anos depois, é que as ordens religiosas são expulsas por D. Pedro IV. Há aqui uma grande distância que tem a ver com o facto de a Companhia de Jesus não ser uma ordem normal. É uma ordem muito dedicada à educação, muito dedicada à ciência, à missionação e que por isso se revestia de características muito particulares quando comparada com as outras ordens.

Não deixa de ser um paradoxo... Foram expulsos por serem contra a ciência e a educação, quando trabalhavam precisamente na ciência e na educação, mais do que as outras.
Exacto, é completamente paradoxal. E o que acontece, ou tem acontecido até agora, é que os historiadores que olhavam para a história da Companhia, olhavam sobretudo do ponto de vista dos documentos que o Marquês de Pombal produziu. E esses documentos, cheios de retórica, acusavam-nos disso mesmo, de serem obscurantistas, de perseguirem as ideias científicas e filosóficas, e o que se veio a ver, olhando para os documentos produzidos, é que isso não era nada realidade.

Agora, com este livro e com estas investigações, percebe-se que a história afinal é outra, é mais interessante.

Faz parte da sua tese que o anti-jesuitismo foi uma das coisas que depois fez os jesuítas apostar mais nas áreas da investigação científica, talvez para provar precisamente o contrário...
Exacto.

O que acontece é que estão cem anos fora de Portugal, mais ou menos, tirando um breve regresso no reinado de D. Miguel. E quando regressam, em meados do século XIX, a tese pombalina é muito forte, por isso sentem-se na necessidade de combater essa tese. E como se sentem nessa necessidade, o que vão fazer é, nos seus colégios, investir imenso nas ciências naturais. Vão fazer laboratórios, criar colecções científicas, promover expedições com os alunos, por exemplo para ver eclipses. Por exemplo, o Colégio de Campolide é o primeiro lugar em Portugal onde se fazem experiências com radioactividade. Foi um padre jesuíta que foi trabalhar com Marie Curie por volta de 1910 e depois vem para Portugal e trabalha pela primeira vez com radioactividade. Isto acontece sobretudo por causa deste anti-jesuitismo do século XIX, que é pouco original, porque retoma muitas das teses do século XVIII e eles sentem necessidade de combater essas teses.

Francisco Malta Romeiras
Não é algo que se passa só em Portugal, pois não?
Portugal é um caso muito particular. Primeiro porque é o primeiro sítio de onde eles são de facto expulsos. O Marquês de Pombal é o primeiro grande estadista europeu a expulsar os jesuítas. Depois os outros países vão seguir as pegadas de Pombal e isto leva inclusivamente a que a ordem seja extinta em 1773, pelo Papa Clemente XIV. Portanto Portugal é o primeiro sítio e é o sítio mais grave, o sítio onde se produz a maior campanha.

José Eduardo Franco, um grande historiador da companhia no século XVIII e que estudou muito o mito jesuíta e anti-jesuíta, diz que esta foi a maior campanha publicitária de sempre. Por exemplo, a Dedução Cronológica e Analítica, que é o livro mais importante publicado por Pombal, foi traduzido para chinês, para que pudesse chegar a todo o mundo e toda a gente pudesse saber as acusações que tinha contra os jesuítas.

Nos outros países em que a Companhia foi sendo restaurada não há tanto esta necessidade de contrariar o obscurantismo, porque as acusações foram mais fracas, foram sobretudo políticas, económicas e sociais, enquanto que em Portugal a tese científica foi muito importante.

Pode descrever, resumidamente, a importância que os jesuítas tiveram para a investigação científica, sobretudo em Portugal, e em que áreas é que trabalhavam?
Nos séculos XIX e XX os jesuítas em Portugal voltaram-se muito para a botânica e para a zoologia, e começaram nestas áreas porque eram áreas que facilitavam o trabalho de amadores. Isto é, eles que não tinham formação universitária quando começaram, podiam facilmente recolher espécimes de animais e plantas e depois identificá-los.

O que é extraordinário é que eles passaram rapidamente de amadores a profissionais e passaram a contactar com os maiores profissionais da Europa e dos Estados Unidos. Essas foram as primeiras áreas.

Mais tarde, dedicaram-se à bioquímica e à genética e melhoramento de plantas, e trabalharam muito com os laboratórios de Estado que foram fundados na altura do Estado Novo, como por exemplo a Estação Agronómica Nacional e a seguir um dos contributos mais relevantes foi a introdução da Genética Molecular em Portugal, pelo padre Luís Archer, que foi o primeiro doutorado em Genética Molecular, doutorou-se nos Estados Unidos, que veio para Portugal e introduziu esta disciplina importantíssima para a investigação em Biologia, nos anos 60 do século XX.

Por isso começando pela botânica e zoologia, passando pela bioquímica e acabando na genética molecular, os jesuítas foram importantíssimos para a ciência em Portugal no Século XX.

Essa tendência mantém-se actualmente?
Ultimamente é mais raro, desde que acabou a Brotéria Genética, que foi dirigida pelo padre Luís Archer em 2002, não há tantos jesuítas a formarem-se em ciência. Penso que há um ou dois que estão a fazer o doutoramento em física, mas não tem acontecido.

O que é peculiar na Companhia de Jesus é que esta ordem religiosa incentiva sempre os seus membros a prosseguirem os seus estudos e a fazer doutoramentos. Não necessariamente em ciência, pode ser em filosofia, em teologia, há jesuítas que fazem em arquitectura, ou até em ciência política, o que é peculiar é isto, de serem sempre incentivados a estudar mais.

No caso português e no caso do regresso no século XIX a ciência era obviamente uma aposta importante. Quando estão mais instalados, como aconteceu, já cá estão desde 1930, quando regressaram depois de expulsos pela Primeira República, já não é tão importante a ciência.

A sua própria área de formação é científica...
Comecei a estudar bioquímica e agora fiz o doutoramento em história e filosofia das ciências.

Tendo em conta a sua própria formação e os estudos que tem estado a fazer, aquela ideia de que a ciência e a religião estão em campos opostos, faz algum sentido?
Essa tese foi muito popularizada no século XIX por White e Draper e o que acontece é que chegou ao domínio popular as pessoas pensarem que se trata de uma coisa real. O que se vê nos cientistas jesuítas é que não existe esta incompatibilidade, nem sequer esse assunto aparece nos seus trabalhos. As pessoas falam na tese incompatibilista, se há ou não uma conciliação entre as duas áreas, e o que acontece na realidade é que os cientistas não ligam a esta incompatibilidade inventada no século XIX. O caso mais conhecido, de que se fala mais é o de Galileu, no século XVII, e que é apresentado como paradigmático, quando pelo contrário foi apenas um caso raro e que não é representativo do que aconteceu ao longo da história da Igreja e da humanidade.

Esse mito da ciência e da fé como incompatíveis é um mito que hoje em dia os historiadores da ciência não acreditam. Por exemplo, um dos grandes historiadores da ciência americano, que é o John Heilbron diz que a Companhia de Jesus foi a maior instituição que promoveu a Física no Século XVII. Ele diz que é a Igreja Católica e dentro da Igreja Católica, a Companhia de Jesus. Há imensos historiadores da ciência ateus, como por exemplo o Ronald Numbers, que escreveu um livro sobre Galileu e os mitos da história da Ciência, voltam a veicular esta ideia de que não há qualquer incompatibilidade entre fé e ciência. No entanto os escritos do século XIX e o Positivismo fizeram aumentar a consciência desta tese junto das pessoas. Por isso, apesar de no meio académico estar resolvida esta questão, nos meios menos académicos as coisas não são assim são simples.

Aliás, há uma série figuras ligadas a grandes descobertas ou teorias científicas que são não só crentes como clérigos. Estou a pensar em Lemaitre, da Teoria do Big Bang.
Basta pensar em Copernico, ou Mendel, que descobriu os factores da hereditariedade, que era monge.

Mesmo a história de Galileu é muitas vezes mal contada, não é? Ele não foi queimado nem morreu fora da Igreja...
Morreu velho em sua casa, em prisão domiciliária. Nunca foi excomungado nem abandonou a Igreja.

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