segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Fim de Ramadão Sangrento

A letra N em árabe, usada para marcar as casas
de cristãos em Mossul e adoptada por muitos como
símbolo de solidariedade. Eu já adoptei, e você?
Estive de férias ao longo das últimas semanas e por isso tive de acompanhar “de longe” a tragédia que se tem abatido sobre o Iraque, onde o Estado Islâmico consolida o seu poder e todos os cristãos foram obrigados a fugir da região de Mossul.

A violência levou o Papa a pedir novamente, e de forma emocionada, um fim da guerra e construção da paz.

A sudanesa que tinha sido condenada à morte no Sudão por ser cristã está finalmente em liberdade, isto é, fora do Sudão, e viajou para Itália, onde foi recebida pelo Papa.

Hoje assinala-se o fim do Ramadão. Os muçulmanos de todo o mundo tentam festejar. Em Gaza, Iraque, Síria, Líbia, Nigéria e mesmo em partes das Filipinas, é complicado… No Paquistão, é sobretudo complicado para os membros da comunidade Ahmadi, considerada herética pelos restantes muçulmanos.

Durante as férias continuaram a ser publicados artigos do The Catholic Thing em português, curiosamente ambos de Randall Smith, um dos nossos contribuidores favoritos!


Termino com um convite dirigido sobretudo aos leitores que são, ou já foram, das Equipas de Jovens de Nossa Senhora. Decorre em Portugal o Encontro Internacional deste movimento, com cerca de 400 participantes de vários países. No sábado há um dia aberto em Belém, que começa com uma série de conferências na Casa Pia, junto aos Jerónimos, e termina com missa presidida pelo Patriarca D. Manuel Clemente, às 16h30. Apareçam!


quinta-feira, 24 de Julho de 2014

Um Concílio Pastoral e Dogmático

Randall Smith
Todos temos as nossas embirrações. Uma das minhas é quando ouço alguém a descrever o Vaticano II como um concílio “pastoral e não dogmático”. Apetece-me responder: “Então nunca chegou a ler os documentos, calculo”.

Os números falam por si. Dos 15 documentos oficiais do Concílio Vaticano II, três são “Constituições”. Duas destas são “Constituições dogmáticas”, uma sobre a Igreja (Lumen Gentium) e outra sobre a Revelação Divina (Dei Verbum). Depois há três “declarações”: Uma sobre educação religiosa, (Gravissimum Educationis), uma sobre a relação da Igreja com as religiões não-cristãs (Nostra Aetate) e uma sobre liberdade religiosa (Dignitatis Humanae). Acrescem oito “decretos” sobre: (1) a actividade missionária da Igreja, (2) o ministério e a vida Religiosa, (6) o múnus pastoral dos bispos, (7) o ecumenismo e (8), as Igrejas Católicas de Rito Oriental.

É de salientar que apenas dois destes quinze documentos contêm a palavra “pastoral” nos títulos: A Constituição Pastoral Sobre a Igreja no Mundo Moderno (Gaudium et Spes) e o Decreto Sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja (Christus Dominus). E tanto um como o outro são inteiramente “doutrinais”.

Atenção, não quero ser mal entendido. Não estou a dizer que o Concílio não foi pastoral em muitos sentidos importantes. Pelo contrário, o problema é a dicotomia que algumas pessoas gostam de criar – coisa que não se encontra no concílio – entre “pastoral” por um lado e “dogmático” por outro, como se fossem duas formas diferentes de ser “religioso”. Esta dicotomia não só viola a “hermenêutica da continuidade” com a tradição multi-secular, em que Bento XVI tanto insistiu, mas coloca o Concílio numa ruptura com a “hermenêutica da continuidade” consigo mesmo.

Num ensaio, o historiador intellectual A.H. Armstrong exorta os seus leitores a “apreciar a dimensão original e inauditamente estranha do fenómeno da Igreja Cristã primitiva, quando vista da perspectiva da observância e da piedade das religiões tradicionais helénicas... A religião helénica enfatizava o culto, não o credo. O que era realmente importante era o cumprimento correcto de sacrifícios e ritos secretos de acordo com o que se considerava ser a tradição imemorial”.

Na maioria das religiões do mundo antigo, os “ensinamentos doutrinais e as instruções morais” simplesmente não diziam respeito ao clero.

“O contraste com a Igreja Cristã é evidente”, diz Armstrong. “Aqui o culto desenvolveu-se de forma bastante casual e apenas atingiu um alto grau de elaboração bastante mais tarde”. Embora os sacramentos e o culto público “tenham sido sempre centrais na vida cristã”, todavia, “aquilo que se ensina dentro e fora da Igreja, sobre a adoração e o Deus a quem esta se dirige e a forma como os fiéis devem viver, sempre interessou aos cristãos de uma forma que não tem paralelo no antigo mundo helénico.”

Outra diferença fulcral, diz Armstrong, é esta: “Toda a pregação e ensinamento de religião ou moral que era praticada na antiguidade era levada a cabo por filósofos, que tinham tanto a ver com a celebração do culto como quaisquer outros e nunca representaram nada que se parecesse com o estatuto nem a autoridade dos pregadores numa comunidade eclesial”.


Aquilo que a Igreja alcançou – especialmente no que diz respeito ao ministério do bispo e dos seus irmãos padres – foi uma integração fantástica destas duas funções: o papel do filósofo, por um lado, de pregar e ensinar a verdade e, por outro lado, o papel do sacerdote no templo, que exerciam os ritos sagrados.

Há muitos católicos, tanto de um lado com do outro da divisão tradicional entre “conservadores e liberais”, que preferiam que os nossos padres fossem do género pré-cristão, para quem “o que era realmente importante era o cumprimento correcto de sacrifícios e ritos secretos de acordo com o que se considerava ser a tradição imemorial”. A diferença é que os “conservadores” tendem a acreditar que estão a demonstrar fidelidade para com uma tradição medieval (mas que geralmente é sobretudo renascentista e do barroco tardio) enquanto os “liberais” julgam que estão a ir à raiz das práticas patrísticas iniciais (mas que, na realidade, tendem a ser reconstruções imaginativas, produzida por liturgistas de meados do século XX, que têm sido reveladas em larga medida como falsas por estudos mais recentes).

Seja como for, em ambos os lados da barricada há muitos que preferiam deixar todas as discussões filosóficas e intelectuais sobre “o Deus a quem o culto se dirige e a forma como os seus verdadeiros fiéis devem viver” (do género protagonizado pelo Papa João Paulo II e Bento XVI), de fora da igreja – a única diferença entre os dois está em saber o que é que o liberal ou o conservador preferiam ouvir em vez de doutrina. Para alguns o melhor são exortações piedosas, para outros, recomendações vagas sobre “ajudar os pobres”.

Queremos mesmo que o nosso padre nos fale e ensine sobre a Trindade, a Incarnação, a Ressurreição do Corpo, Salvação, Justificação, Santificação e os nossos deveres morais para com o nosso próximo? Queremos mesmo instrução profunda que nos leve a crescer na compreensão da fé? Queremos verdadeiramente que o padre nos desafie moralmente, tanto em termos da nossa vida interior e pessoal como em termos das nossas obrigações e responsabilidades para com os outros membros da sociedade?

Deixemo-nos de ilusões: Se vivesse na Igreja primitiva e o seu bispo fosse Ambrósio, ou Agostinho, ou Basílio de Cesareia, seria isso mesmo que ouviria – às pazadas.  

O Vaticano II foi um grande Concílio pastoral precisamente porque foi um grande concílio dogmático. Pensar que se pode dar cuidados pastorais correctos sem uma formação doutrinal sólida é como pensar que se consegue fazer uma cirurgia ao coração sem os conhecimentos adquiridos no curso de medicina.


Randall Smith é professor na Universidade de St. Thomas, Houston, onde recentemente foi nomeado para a Cátedra Scanlon em Teologia.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 19 de Julho de 2014 em 
The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing


quinta-feira, 17 de Julho de 2014

Um Poder Superior

Randall Smith
Uma amiga explicou-me recentemente, e de forma irritadiça, que deixou de acreditar na existência de um “poder superior”. Ainda bem. Como os mitos gregos nos mostram, os “poderes superiores” são capazes de todo o género de coisas que não são particularmente simpáticas para os humanos. E, para dizer a verdade, o conceito de um “poder superior” é demasiado fraco para perdurar muito tempo.

Por isso, quando as pessoas rejeitam a noção de um “poder superior”, na maioria das vezes estão a abandonar as suas ideias pagãs de Deus como um Grande Mestre de Xadrez do Universo, que move as suas criaturas como peões no grande tabuleiro do cosmos.

Ou então têm pensado no “poder superior” como se fosse “a força” da Guerra das Estrelas. O problema com “a Força”, como a Guerra das Estrelas nos mostrou, é que os maus a podem usar tão eficientemente, senão mais, que os bons. Quanto ao “equilíbrio” na Força, bem, tanto quanto consigo perceber, significa pouco mais que guerra constante – e mais filmes. Se a “Força” existisse mesmo, e se dependesse da existência de bichos que vivem dentro de nós, eu inventaria uma vacina para a curar. Personagens que conseguem estrangular outras com o poder da mente merecem ser curadas, não admiradas.

Os cristãos não acreditam simplesmente num “poder superior”. Acreditam num Deus de Amor Altruísta e Abnegado. Não se trata apenas de “poder”. É poder ao serviço do amor, para o bem dos outros, sobretudo os mais fracos e necessitados.

Se os cristãos acreditassem mesmo nesta divindade pateta e sem alma que muitas pessoas têm na cabeça, faríamos bem em abandonar esse “poder superior” e procurar algo melhor. Aliás, seria um passo essencial para o desenvolvimento espiritual.

O que acontece muitas vezes nestas situações é que a pessoa que supostamente “perdeu” a sua fé, na verdade acaba de enfrentar, de alguma forma distinta, o maior de todos os problemas: o problema do mal. Como é que pode haver mal no mundo se existe um Deus perfeitamente bom e inteiramente amor? Ou então pode simplesmente ter chegado a um ponto em que a vida parece ter perdido o sentido.

A minha recomendação para estas pessoas é para pensarem de onde derivam a própria ideia do “bem”. O que faz com que uma coisa seja “boa?” Quando a vida nos parece injusta, o que é que nos levou a crer que era suposto ter sido justa? De onde vem o “sentido”?

Não teríamos qualquer razão para pensar que a vida, neste cosmos grande, vazio e aparentemente sem sentido, devia ser “justa” se não nos tivesse sido dada essa esperança de algo para lá das realidades físicas e empíricas que nos rodeiam todos os dias.

Como diz C.S. Lewis no seu livro “O Problema do Mal”, o problema intellectual do mal só existe precisamente porque os cristãos propuseram a noção de um Deus perfeitamente bom e que ama perfeitamente. Sem esta noção, o sofrimento não é um “problema”, simplesmente é. O sofrimento e a morte seriam – como muitos acreditam que são – os produtos naturais de um universo essencialmente caótico e desprovido de sentido. Não serve de nada ficarmos desapontados ou zangados sobre esse tipo de coisa.

Sem um Deus providente que nos ama, das duas uma, ou se pode escolher maximizar o prazer e minimizar o sofrimento, como faziam os epicuristas, ou se engole a realidade e aprende-se a viver com ela, como faziam os estóicos. Mas culpar “os deuses” ou “o destino” nestas questões é como erguer os punhos às marés. O mar vai subir e inundar o teu castelo de areia quer queiras quer não. Por isso sai do caminho ou prepara-te para seres submergido.
 
Um Poder Superior
Só aqueles que imaginam que o universe poderia ser melhor, que imaginam que o universo é feito para nós como um lugar de florescimento, é que têm direito a sentir-se desapontados. E quem é que vê a realidade por essa perspectiva? Os epicuristas e os estóicos não. Só quem acredita num criador que criou o universo para nós e que nos ama de tal forma que se dispôs a morrer pelos nossos pecados.

Recorremos a noções de “bondade”, de “justiça” e de “sentido” como se nos pertencessem e depois atiramo-las à cara de Deus quando nós, e o mundo pelo qual somos responsáveis, não correspondem aos seus padrões. Esquecemo-nos é de que Ele é aquilo sem o qual não há sentido. Só existe “justiça” se houver um Criador do que é justo. Não existe “mal” sem um padrão último pelo qual julgamos o “bem”. Sem Ele, não haveria mais do que caos e falta de sentido. 

Os cristãos não acreditam que este é o “melhor dos mundos possíveis”. Bem pelo contrário. A história cristã fala-nos de uma queda para a agonia do pecado, sofrimento e morte. A história cristã oferece-nos um ideal a que podemos aspirar; não nos pede que nos satisfaçamos com a nossa sorte actual. O nosso problema não está em desejarmos demais, está no facto de, na maior parte das vezes, desejarmos de menos.

Alguns dos que supostamente perderam a fé, na verdade estão apenas a experimentar aquela inquietação de um coração que só descansará Nele. Temos a tendência de criar estas categorais confortáveis onde nos refugiar. Não é uma coisa inteiramente má, claro. Pensamos com palavras e compreendemos por categorias. Mas todas as categorias têm as suas limitações.

Deus presta-nos um grande serviço quando rebenta com elas para abrir espaço para Ele: Aquele que está para além de todas as categorias, mais do que um “ser supremo”, um Ser Subsistente em Si mesmo, Fonte de todo o Ser e Bondade – uma pessoa e não um poder, com poder de tal forma incomensurável que se consegue esvaziar dele para se tornar Amor Incarnado, Deus Connosco e Por Nós.


Randall Smith é professor na Universidade de St. Thomas, Houston, onde recentemente foi nomeado para a Cátedra Scanlon em Teologia.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 2 de Julho de 2014 em 
The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


sexta-feira, 11 de Julho de 2014

#PAUSEforPeace seguido de #PAUSEforFérias

Só se fala da “final dos Papas” e não há falta de caricaturas e montagens alusivas. A Renascença apresenta-lhe as melhores. Desporto, religião e bom-humor!

Tudo isto levou o Vaticano a abrir os olhos para uma excelente oportunidade de promover os seus valores. Nasceu assim o #PAUSEforPeace, uma proposta para se fazer uma pausa pela paz antes da final. FIFA, estão a ouvir?


O Papa nomeou hoje um bispo para Colónia, na Alemanha. Rainer Maria Woelki é uma escolha interessante, que diz muito sobre o tipo de bispo que Francisco procura para a igreja de hoje.

Famalicão acolhe este fim-de-semana um encontro de poesia coordenado por Tolentino Mendonça e Pedro Mexia. A antologia parte de Deus como uma interrogação. Saiba mais aqui.

Para quem está nos arredores de Seia fica a proposta. A Rota das Alminhas promove o culto da oração pelas alminhas do purgatório.




quinta-feira, 10 de Julho de 2014

quarta-feira, 9 de Julho de 2014

Um Franssu no Banco do Vaticano

Je suis un Franssu
Novidades no Banco do Vaticano! Hoje foi nomeado o novo presidente da instituição, um francês chamado Franssu… sim, é mesmo um francês chamado Franssu… O Cardeal Pell teve uma gaffe interessante durante a conferência de imprensa, dizendo que os novos dirigentes querem alcançar a transcendência… quero dizer, a transparência, da instituição.

Na área das comunicações sociais também há novidades, incluindo a nomeação do inglês Chris Patten para supervisionar a modernização.

Portugal pode vir a ter um novo santo. Trata-se de um bispo nascido em Portugal mas que exerceu o ministério no Brasil e ficou conhecido por combater a escravatura.

Da República Centro-Africana mais notícias de mortes. Desta vez foram 24 cristãos atacados em plena catedral.




Meras crenças ou argumentos racionais?

Francis J. Beckwith
Na passada terça-feira Hadley Arkes levantou uma questão muito importante sobre a forma como o tribunal se referiu às crenças da família Green, os queixosos no caso Hobby Lobby. Tal como noutras ocasiões, a “religião” foi reduzida meramente à invocação de “crenças sinceras”.

Os Green dizem acreditar que a vida humana começa na concepção. Este é um facto básico dos manuais de embriologia, mas aqui aparece reduzido a uma mera “crença”, tal como a própria religião é reduzida a meras “crenças” sem base na razão.

A observação de Hadley é claramente correcta e não se aplica unicamente a esta decisão. Esta é a forma como os especialistas em direito e as elites académicas tendem a caracterizar as crenças religiosas que chocam com a narrativa liberal dominante. Em vez de as encarar como rivais intelectualmente sérias da narrativa liberal do assunto em disputa, a crença religiosa é apresentada como pertencendo a uma categoria inteiramente à parte.

A razão para isto, ao que me parece, é que os críticos de religião pensam, erradamente, que todas as crenças religiosas são apenas consequências da revelação, acessível ao crente através da escritura (como a Bíblia ou o Alcorão) e/ou uma autoridade eclesiástica.

Por isso, para o típico académico secularista, o facto de um católico acreditar que um embrião é verdadeiramente uma pessoa está na mesma categoria que a doutrina da transubstanciação. Por isso para o secularista, tal como a ideia católica do pão e do vinho consagrado é um acrescento religioso à visão científica do pão e do vinho, a visão católica do embrião é um acrescento religioso à visão puramente secular da vida nascente.

Através desta técnica, o secularista consegue dar a entender que se trata de duas matérias incomensuráveis, a fé e a razão, em vez de duas respostas contrárias à mesma pergunta: Será que o embrião é um de nós?

Como Hadley diz, e bem, as conclusões da embriologia são imensamente úteis neste debate. Mas para o secularista mais sofisticado, aquele que aceita a humanidade do embrião, mas nega que tenha o estatuto de pessoa, o activista pró-vida deve recorrer à filosofia, uma vez que é esse também o instrumento a que recorre o secularista para apresentar a sua visão.

O secularista argumenta que aquilo que torna qualquer ser um sujeito moral é a sua capacidade de participar em actos que tipicamente atribuímos a pessoas, como a capacidade de comunicar, autoconsciência, etc. Logo, para este crítico, um embrião não pode ser um sujeito moral, isto é, uma pessoa.


O defensor da vida não nega que uma pessoa possa fazer estas coisas, defende é que não é a capacidade de as fazer que faz do ser humano uma pessoa. Pelo contrário, os actos pessoais são aperfeiçoamentos daquilo que um embrião é, um ser com natureza pessoal. É por isso que um homem cego, inconsciente ou deficiente mental não deixa de ser um homem.

O nosso juízo sobre aquilo que lhe falta depende de sabermos o que é. Logo, para o pró-vida, o embrião é um de nós por causa do que é, não do que faz.

Mas isto significa que a posição da família Green – de que o embrião é, desde a concepção, verdadeiramente um de nós – não resulta meramente de um decreto eclesiástico ou de exegese bíblica, ainda que esteja firmemente ancorada em ambos. Antes, é o resultado do mesmo tipo de raciocínio usado pelos críticos da religião: a análise filosófica de uma realidade empírica.

Logo, a crença dos Green não é mais nem menos “religiosa” que a dos secularistas. Cada um está a oferecer uma resposta para a mesma pergunta, ainda que através de tradições de reflexão filosófica contrárias.

Sendo assim, certos críticos da decisão do tribunal no caso Hobby Lobby, nomeadamente aqueles que a pintam como uma vitória da fé sobre a razão, das duas uma: ou revelam ignorância sobre a natureza da disputa ou sabem que se forem honestos quanto à mesma não estarão a avançar a sua agenda política.

Se for o primeiro caso, então há esperança de um entendimento e de um debate público sério mas respeitoso. Se for o segundo (e temo que seja o caso), então estamos diante de adversários que rejeitam não só a fé, como também a razão. Adiuva nos Domine Deus.


(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 4 de Julho 2014 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics, a festschrift in honor of Hadley Arkes.

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.


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