terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

"Há pessoas que se sentem confortadas na fé com a nossa música"

Transcrição integral da entrevista aos Simplus. Ver reportagem aqui.

Como surgiu o projecto dos Simplus?
[Luís Roquette] Os Simplus surgiram com base num almoço em que eu e a Maria nos conhecemos. Nós somos primos mas nunca nos tínhamos conhecido porque ela esteve na Bélgica durante algum tempo. Nesse almoço começámos logo a compor, a escrever música, por brincadeira, mas sempre com este pano de fundo da vivência cristã. Começaram a surgir ideias, tema, começou tudo isto a florescer. Isto há uns 12 ou 13 anos. Fez agora 11 anos que começámos o projecto, quando ainda eramos Maria Durão e Luís Roquete.,

Pode-se dizer que vocês procuram evangelizar pela música?
[Maria] Não sei se adoro essa expressão. Pode-se dizer, porque a verdade é que muitas pessoas já vieram ter connosco dizer que se sentem confortadas na fé, ou nas provas que têm n a vida, ou que as ajuda na relação com Jesus e com Deus. Acho que isso é evangelizar. Não se pode dizer na medida em que não é uma coisa consciente. Não pensámos fazer um projecto de música para evangelizar. Escrevemos aquilo que vivemos. Como somos católicos, pode ser que isso ajude as pessoas a viver a sua fé.

Nesta questão da fé, estão sempre em sintonia? Os vossos percursos têm sido bastante diferentes…
[Luís] Não é difícil porque tanto eu como a Maria somos muito abertos à opinião do outro. A Maria normalmente tem mais peso nas palavras, no poema, e eu sou mais virado para a parte musical, de composição.

Nas nossas famílias sempre ouvimos falar neste tema, sempre fomos educados neste sentido. Mesmo que falemos de outro tema qualquer acaba por ir dar aí.

Até que ponto é que a música teve impacto sobre a vossa espiritualidade? Também foram evangelizados pela música?
[Maria] Lembro-me que a primeira vez que fui a um grupo de jovens, resisti meses e meses, mas da primeira vez que fui cantou-se meia hora e depois falava-se. Nos primeiros tempos só ia porque se cantava, e eu nunca cantava antes. Não era daquelas pessoas que cantava em casa e os pais aplaudiam. Foi uma surpresa para a família e para mim, descobrir que afinal cantava, e começou com a minha entrada na Igreja. Por isso claro que a música também está ligada à espiritualidade.

Fui muito marcada pelo coro de Santo António do Estoril, e as primeiras músicas que saíram tinham muito esta marca.

[Luís] Eu fui muito marcado pelo fado. Estou habituado a ouvir fado desde muito cedo e foi um bocadinho por essa via. No fado há muito este tema subjacente, até nos nomes, há uma certa espiritualidade subjacente na cultura portuguesa.

O coro de Santo António também foi importante, bem como a música clássica. Ouvimos Beethoven, Mozart, Bach, Schubert, todos eles compunham um bocado nesse sentido. Porque não, na música moderna, com influências rock e pop, falar de uma realidade que mudou o mundo e muda as nossas vidas.  

Têm feedback dos vossos fãs? Há alguma história de pessoas que se tenham convertido através dos Simplus?
[Maria] Estou a pensar numa pessoa que veio ter comigo e mostrou uma mensagem de um rapaz que tinha tido um desastre e tinha de estar deitado ou fechado em casa durante muito tempo, e dizia que o que o ajudava era rezar o terço e ouvir as nossas músicas.

[Luís] Eu costumo ir à prisão de Tires rezar com as reclusas, juntamente com um grupo grande. E houve uma vez em que se estava a contar histórias e uma rapariga começou a cantar a nossa música, a dizer que a tinha aprendido no Brasil e que era uma das músicas que a fazia sentir fora dali, que a fazia sentir uma certa liberdade, um certo consolo. De repente ela começa a cantar a entrega e cai-me a ficha e percebo que isto está mesmo fora das nossas mãos. É uma história para contar aos netos e aos filhos e que vai ter certamente impacto. É giro ver que isto está do lado das pessoas mais frágeis, a capacidade que a música tem de mover, comover e ajudar pessoas em situações mais frágeis.

O vosso percurso mais comercial tem sido dificultado pelo facto de se identificarem como conjunto cristão?
[Maria] Nem sequer tentámos muito ir pelos caminhos comerciais. Nenhum de nós vive disto. Pelo meu lado gosto mesmo de não viver disto, porque me permite fazê-lo com uma gratuidade e uma distância… não depender do projecto é uma coisa muito boa. Não percebo o que seria escrever se a minha vida fosse isto, porque eu escrevo sobre a minha vida. Entusiasma-me muito ser assim. Nunca tentámos muito entrar na via comercial. Sempre deixámos a comunicação a um grupo de amigos que nos ajuda e às pessoas que se sentem tocadas por isso. Recentemente tomámos a decisão de ter todos os nossos discos disponíveis gratuitamente na internet.

Está claríssimo para nós que é mesmo uma via não comercial, podemos chamar uma via independente. O que nos interessa é mesmo fazer e deixar nas mãos das pessoas que espalhem.

Em Portugal não existe uma grande indústria de música cristã, mas existem algumas bandas e intérpretes. Quem é que destacam?
[Luís] Nesta área propriamente não encontro ninguém específico que me preencha a mim especialmente. Mas há outros artistas portugueses, de outras áreas, que me levam, com as suas palavras e a sua forma de interpretar de outra maneira o que nós fazemos, que acho que são de sublinhar.

Principalmente estas coisas têm de ter uma certa sensibilidade, porque nem toda a gente está disposta a receber uma mensagem assim de caras. As coisas têm de ser feitas como numa conversa com uma pessoa que acredita em tudo ou não acredita em nada. A música tem esse poder, podemos estar a falar de Jesus e conseguir chegar, por outras palavras, a muita gente. Um dos artistas portugueses que consegue fazer isso é o Tiago Bettencourt. Ele tem letras que me levam a pensar que ele está a tentar explicar uma coisa que também sinto, mas de outra forma.

[Maria] Há muitas coisas no Samuel Úria, que gostava de salientar o Samuel Úria, há coisas neste último disco dele que, embora ele não fale muito abertamente de Deus, há claramente uma mensagem cristã. Tenho ouvido muito o disco dele.

Vão ter um concerto em breve…
É no dia 27 de Fevereiro, às 21h no Teatro Gil Vicente, em Cascais. Os bilhetes é tudo online, enviando uma mensagem pelo nosso Facebook. Vamos ter como convidados a Joana Espadinha, o Salvador Seixas, o Francisco Salvação Barreto, a Diana Castro e o Bernardo Romão na guitarra portuguesa.

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